Por muito tempo, o valor da exclusividade sexual reinou imbatível. Claro que ele não evaporou, mas há uma flexão cada vez maior a outros ângulos. “A mudança diz algo sobre o que as pessoas passaram a valorizar: menos o cumprimento de um modelo e mais a honestidade nos acordos que estabelecem. E isso vale para qualquer formato de relacionamento,” diz o psicanalista e colunista do Page9 Filipe Batista.
Para 87% dos brasileiros, o País está mais aberto a modelos diversos de relação do que há cinco anos, segundo a pesquisa da Sexlog, a maior rede social voltada para swing, encontros sexuais, sexo virtual e exibicionismo da América Latina. Com 3.480 pessoas no levantamento, o percentual é expressivo pela amplitude: inclui diferentes gêneros e variadas faixas etárias de todas as regiões do Brasil.
A respeito do tema da exclusividade sexual e afetiva, somente 9,7% a consideraram indispensável. Por sua vez, 71,6% frisaram que a confiança é o fator principal num romance. “Hoje existe menos disposição para aceitar modelos prontos e mais interesse em construir acordos que façam sentido para cada casal. Isso não significa menos compromisso. Significa que o compromisso deixou de ter uma forma única,” diz Filipe.
Por isso, levantamos um pequeno guia do assunto para preparar aqueles que navegam ou desejam mergulhar por esses mares. Aqui, o objetivo não é pregar dogmas — até porque, em qualquer relação, inclusive na monogamia, o que funciona é singular: ter ou não filhos, dormir juntos ou em quartos separados, curtir festas separados ou apenas coladinhos…
Combine e cumpra
“O amor é infinito, é livre pra caramba, mas os recursos afetivos são escassos. O tempo e a energia vão passar, por vezes, por prioridades,” disse a sexóloga e terapeuta tântrica Ana Leela, que possui duas relações longas com pessoas distintas e, além dessas, com outros “afetos”.
Uma dessas prioridades é honrar com sua palavra. Falou que vai passar a Páscoa com um? Cumpra e passe o São João com o outro. E assim o calendário caminha. “É engraçado porque sempre surge uma pergunta clássica: ‘Se com um já é difícil, como você faz para administrar dois?,” disse Ana Leela.
“A resposta é a seguinte: se você está tendo que administrar, já está errado. Isso não é uma empresa ou trabalho das 9h às 17h. É afeto e, nesse caso, eu priorizo o que acordei com cada pessoa.”

O ciúme existe, mas seu afeto não tem nada com isso
“Por mais que eu seja terapeuta e viva no poliamor há um tempo, ainda fico com ciúmes. Mas, quando acontece, tento entender o que me causa isso. Os ciúmes são meus. Não vou jogar o B.O. para a outra pessoa,” disse a terapeuta tântrica Ana Leela. A solução, como sempre, é o diálogo.
A convivência é fluida
Não é porque você está em uma relação poliamorosa que deve construir uma grande amizade com quem seu parceiro se relaciona. Se isso acontecer naturalmente, ótimo.
Viver com bem-estar e ter harmonia entre os outros indivíduos facilita, mas há uma diferença entre cordialidade e cuidado com forçar a barra da parceria. “A minha não monogamia é de ‘mesa’, pois a gente pode sentar, cada qual com a sua configuração de estrutura de vida, e aproveitar um jantar. Conseguimos conversar, sorrir e partilhar a vida,” diz a pedagoga Gerlane Ataídes, casada e com quatro filhos e que se relaciona com mais outras quatro pessoas.
Não tente converter o próximo
Apaixonou-se por um poliamoroso e sabe que somente a monogamia funciona para você? Como não dá para voltar três casas, atenção de agora em diante: não é você, sob a bênção divina, que vai mudar a ideologia, preferência, configuração, o que seja, de outra pessoa. É melhor não insistir nessa ilusão de controle.
“Eu não me aproximo de pessoas de ideologia monogâmica porque eu sei que dói muito. A pessoa não percebe o amor fora da concepção de eleição. Nela, um único indivíduo é escolhido e os outros são excluídos automaticamente,” diz Gerlane.

Tenha cautela antes de se jogar no poliamor
Você não precisa jogar para cima toda a estrutura de vida que adotou desde sempre. Reflita. Somente cada um sabe o quão cara é a forma que resolveu se organizar — e o que pode mudar ou não.
Leia sobre o tema, converse com quem já tem um pouco mais de experiência no assunto, troque com seu companheiro e tente dar alguma vazão à curiosidade. Freud já disse, há mais de um século, que a vontade reprimida sempre dá as caras, de uma forma ou de outra. “Fui criada em uma família católica praticante, ensinada que quem ama não trai. Porém, eu sempre estranhei isso, pois apesar de quase todo mundo seguir um mesmo script, a monogamia, eu já fui traída várias vezes e observava que muitos ao meu redor também,” diz a pedagoga Gerlane Ataídes, que, na época, tinha um casamento de seis anos monogâmico. Hoje, ela e o marido estão juntos há 11 anos — de maneira poliamorosa.
“Comecei a estudar por quais motivos as pessoas traem e acabei esbarrando na não monogamia. Descobri que existem muitas formas de se relacionar. Conversei com meu marido, resolvemos tentar e não foi fácil se adaptar, mas entendemos que faz sentido e conseguimos viver com contentamento e bem-estar.”
A família não fica de fora do poliamor
Pessoas poliamorosas também têm filhos e isso não vai incapacitá-los de ter uma boa conduta na vida ou estimular comportamentos sexuais impróprios (cuidado com o moralismo) ou torná-las afetivamente descompromissadas.
A conversa franca ou, caso julgue os seus filhos muito pequenos para o papo, uma convivência desmitificada podem operar grandes mudanças. “Quando comecei como poli, a minha mais velha tinha 20 anos, então consegui conversar diretamente. Os outros eram muito pequenos, por isso optei por não nomear e deixei que sentissem a presença daquela outra pessoa na minha vida. Com o tempo, eles perceberam que havia um bem-querer e afeto,” diz a pedagoga. “Os caçulas não sabem os nomes direito — poliamor, relacionamento aberto, não monogamia —, mas conhecem as presenças.”

Prepare-se para as críticas
Você está testando algo que, apesar de parecer ter tomado conta das conversas presenciais e de apps de relacionamento, ainda é incipiente. No geral, as pessoas são educadas para serem monogâmicas, e a maior parte delas se mantém dessa forma a vida inteira.
De jeito algum isso justifica que você seja desrespeitado ou que tenha suas relações diminuídas, mas… é inevitável: em algum momento virá uma olhada torta.
“Embora seja vivida na intimidade, a vida amorosa também expressa valores e expectativas sociais. Os modelos de família oferecem referências e uma sensação de estabilidade,” diz o psicanalista Filipe Batista. “No fundo, toda mudança nos costumes nos lembra que aquilo que parecia natural era, apenas, uma das formas possíveis de viver.”















