Operação Piggy
“Não acredito que você não tem um vibrador para chamar de seu.”
A frase da Patrícia, entre uma taça e outra de vinho branco, não me saía da cabeça.
Não que tenha ficado constrangida. Morri de rir com as meninas falando de seus modelos favoritos, das últimas novidades do mercado, dos momentos divertidos com seus porquinhos de silicone. Mas estava claro que eu havia ficado para trás.
Não era só o restaurante do momento nem as músicas novas da Marisa que eu não conhecia. Não conhecia o meu corpo, o jeito que o coração bombeia meu sangue, o ritmo do meu pulso.
Bom, estava entendido que era urgente comprar os tais bichinhos que faziam a alegria da galera. Faltava descobrir com que cara eu entraria na fila de um sex shop com um pênis de plástico na mão.
Patrícia tinha feito uma lista com seus endereços favoritos da internet, mas a ideia de um pacote gigante chegando em casa, que não teria como justificar para a cozinheira, o guardinha da rua ou para Ricardo (sim, quatro meses depois, eu já sabia o nome do moço da piscina), me dava tontura.
Não ia dormir nunca mais imaginando cenas de terror até esse treco chegar. E depois que chegasse talvez precisasse mudar de país.
Lembrei que ao lado do prédio da minha dentista tinha uma galeria com uma loja dessas. Tinha passado na porta uma vez em que a Dra. Ana atrasou a consulta porque a paciente anterior era taróloga e ela resolveu tirar a sorte.
Parecia pequena, não olhei direito. Na época, estava grávida do Pedro e nada do que pudesse ter ali me fazia falta (como posso ter sido idiota assim por tanto tempo, me diz?).
Completei o look preto contra-regra com o Jackie O que tinha sido da minha mãe e, com as mãos deslizando no volante, dirigi até Ipanema. A galeria estava relativamente vazia e ninguém me viu quando atravessei a cortina de paetê que cobria a entrada.
Passei quarenta minutos lendo embalagens cujo desenho não me remetia a nada. Depois, chequei a etiqueta de umas tiras vermelhas que, segundo a indicação, eram calcinhas (???).
Até que tomei coragem de falar com alguém. Estava me dirigindo à garota de piercing na sobrancelha e delineado perfeito quando entrou um casal. Migrei então para a sessão de velas e fingi me interessar por uma verde clara sabor caipirinha.
Observei eles de longe, sentindo uma pontinha de inveja. O jeito que se olhavam, a maneira firme como ele segurava a cintura dela, o sorriso desavergonhado que trocaram quando escolheram um negócio de duas pontas que eu não fazia ideia do que era.
Na segunda investida, precisava ser mais rápida. Estava quase tocando o ombro da vendedora, quando ela acenou em direção à porta. De rabo de olho, notei que entrava uma senhora de vestido florido, com jeito de habitué e cara de quem costura roupas juninas para os netos e joga damas aos domingos.
“Não acredito que você não tem um vibrador para chamar de seu.” A frase da Patrícia agora soava como humilhação.
Me recusei a olhar para o carrinho de compras da mulher, que certamente era mais velha que a minha mãe e muito mais feliz que eu. Naquele momento tive certeza: minha mãe tinha um vibrador e eu não.
Na terceira tentativa, estava convencida de que daria tudo certo. Enchi o peito de confiança quando ouvi a frase atrás de mim. “Oi, tia!”
Me virei em câmera lenta.
Era a sobrinha do meu ex, que eu conhecia desde os 5 anos. Ela olhou para a vela de chocolate com amarula na minha mão antes de sorrir. Só então percebi que havia alguma coisa estranhamente familiar naquele formato.
"Faz tempo que você não aparece," disse, enquanto eu escondia o pinto de cera atrás do corpo, como se o médico da dieta tivesse me flagrado com uma caixa de Nhá Benta.
Acho que também sorri, não lembro.
Tentei balbuciar alguma coisa, mas o comando não chegou à boca. Pontinhos pretos tomaram conta da minha visão. Ia desmaiar. Mas o instinto de sobrevivência foi mais rápido. Ainda gelada, simulei uma ligação urgente, dei um beijo na testa de Julinha e me despedi com sinais de "depois te ligo".
Fui para casa de táxi. Só no dia seguinte lembrei que tinha deixado o carro em Ipanema.















