O museu que é o “único lugar são” para ver arte nos Estados Unidos
Artes

O museu que é o “único lugar são” para ver arte nos Estados Unidos

Escondida entre Nova York e Washington, a Barnes Foundation reúne um dos acervos mais relevantes da arte moderna — e talvez a forma mais pura de vivê-la nos Estados Unidos.

FILADÉLFIA - Qualquer museu na Europa ou em Nova York que contasse com 181 obras de Auguste Renoir, 69 obras de Paul Cézanne, 59 obras de Henri Matisse e 46 obras de Pablo Picasso, estaria no topo da lista de visitas de qualquer amante da arte ou de um turista mais antenado, porém esse acervo está “escondido” na Filadélfia, uma cidade que não fica nem entre as 15 mais visitadas dos Estados Unidos, encaixotada entre Nova York e Washington.

O Museu da Barnes Foundation foi fruto do trabalho de seu fundador, Dr. Albert Barnes, um dos maiores colecionadores de arte dos EUA, que reuniu algumas das obras mais importantes do impressionismo europeu da virada do século.

O acervo de mais de 900 pinturas - avaliado em mais de US$ 25 bilhões - ainda que pequeno comparado ao de grandes museus europeus e de Nova York, tem seu destaque na importância de suas obras. 

Nos pouco mais de 8 mil metros quadrados do museu é possível ver obras impressionantes - com o perdão do trocadilho - como um dos cinco quadros da série “O Carteiro” de Van Gogh, uma das três versões de “As Banhistas”, de Cézanne, e “As Modelos”, de Georges Seurat.

Ao passear pelo museu é comum passar batido por grandes obras como “Reclinar Nu de Costas”, de Amadeo Modigliani, ou “At Montrouge” de Henri de Toulouse-Lautrec, que acabam ofuscadas pelas obras exuberantes de Renoir, Cézanne, Matisse e Picasso, os quatros pilares da coleção de Dr. Barnes.

A coleção iniciada em 1922 logo ganhou fama do outro lado do Atlântico, sendo classificada por Matisse como “o único lugar são para ver arte” nos EUA, quando ele visitou o local em 1930. O pintor e Dr. Barnes se tornaram amigos e em 1932 o colecionador encomendou o mural “A Dança II”, até hoje um dos destaques do museu.

O museu foge de qualquer molde atual ou da época. A visão de Barnes para sua coleção passava longe do consumo massivo de arte, mas pela educação através dela: o colecionador entendia que sua fundação era um local mais voltado para lecionar sobre a arte do que para apreciá-la, um dos motivos que o levaram a sediar o acervo inicialmente em Lower Merion, cidade na região metropolitana da Filadélfia. 

A disposição da coleção também segue as idiossincrasias de Barnes, que recusava o ambiente estéril dos museus tradicionais, a disposição das obras em critérios cronológicos e a noção de que apenas pinturas são arte. 

Plaquinhas com a ficha técnica da obra? Esqueça, o doutor queria que o espectador sentisse a obra, sem se ater a nomes famosos e explicações.

“Nós mantivemos o foco de ter uma apresentação puramente visual, sem textos ou legendas fixados nas paredes. A visão dele era que as pessoas olhassem a arte em primeiro lugar”, explica Martha Lucy, vice-diretora e curadora da Barnes Foundation.

Dessa forma, a Barnes Foundation é até hoje organizada na visão de seu colecionador, então você não encontrará luzes brancas e amplos salões, mas salas acanhadas, com luzes amarelas e quadros dispostos entre ferragens e móveis.

Sim, Dr. Barnes gostava de fazer composições com seus quadros e outros tipos de objetos. O colecionador equiparava o valor estético de um móvel ou ferragem ao de um quadro. Dessa forma, o museu também conta com peças de arte africana, cerâmica e joalheria indígena norte-americana, mobiliário germano-pensilvano e trabalhos em ferro forjado.

Outro ponto fora da curva da Barnes Foundation está na forma em que as principais obras estão distribuídas no museu. 

Ao invés de utilizar uma abordagem cronológica, a coleção busca dispor as obras de maneira estilística - assim, é possível entender o diálogo entre as obras, como a conversa entre o quadro “As Banhistas”, de Cézanne, com o mural “A Dança II”.

Foi a sede em Lower Merion que possibilitou a Barnes concretizar sua visão, em um prédio construído na propriedade de sua mansão e criado pelo arquiteto francês Paul Cret, que também elaborou o prédio do Federal Reserve, em Washington.

O interior da sede atual da Fundação, na Filadélfia, é uma cópia fiel da visão inicial de Barnes, com as salas e a disposição das obras iguais às da sede original, mas envelopada por um prédio moderno.

O projeto da sede atual foi feito pelo escritório Tod Williams Billie Tsien Architects com um exterior todo revestido por calcário fossilizado, que remete ao calcário francês usado por Cret na sede anterior.

No interior, o visitante é recebido por um amplo saguão e uma estante de livros da Coleção. Há no local um auditório com 150 lugares e duas salas de seminário, que ressaltam o foco na educação desejado por Dr. Barnes. 

“Nós realmente ampliamos a missão educacional desde que nos mudamos para a Filadélfia. Recebemos muitas crianças, cerca de 8 mil por ano, algo que praticamente não acontecia durante a vida de Barnes. Também expandimos os cursos que oferecemos: continuamos a dar aulas nas galerias, da mesma forma que acontecia no tempo de Barnes, diretamente em frente às pinturas. Mas também temos uma ampla e sólida variedade de aulas que oferecemos online”, diz Lucy.

Apesar do moderno prédio, a ida da Coleção para a Filadélfia significou a derrota da visão do fundador sobre seu projeto de vida, que sempre deixou claro que o museu nunca deveria sair de Lower Merion.

A relação de Barnes com a pequena cidade na região metropolitana da Filadélfia é uma história de como sua paixão foi recebida inicialmente na cidade - e como ele ganhou a antipatia da elite local.

O colecionador fez sua fortuna ao criar o remédio Argirol, um antisséptico para gonorreia - cuja cor laranja é hoje a cor oficial da fundação - e tomou gosto pela arte durante visitas à Europa. Foi em 1912 que ele resolveu começar a colecionar arte como hobby e para ajudá-lo contactou seu antigo amigo de escola e agora pintor, William Glackens, para uma missão: ir até Paris com US$ 20 mil e montar uma coleção com o que de mais moderno havia na arte daquele tempo.

A missão foi concluída com sucesso e Glackens voltou aos EUA com 33 quadros, incluindo algumas pérolas, como “O Carteiro”.

A primeira exposição pública da coleção ocorreu em 1923 na Pennsylvania Academy of the Fine Arts e a reação da elite e da imprensa local marcou para sempre a relação do colecionador com a Filadélfia.

“A maioria do público e dos críticos americanos achava que a arte que ele estava colecionando era simplesmente louca, radical demais e insensata”, disse Lucy. “Havia artigos nos jornais da Filadélfia, na década de 1920, sobre quão insana era a coleção de arte de Albert Barnes, porque ele foi um dos primeiros nos Estados Unidos a reunir esse tipo de artista. A Filadélfia naquela época tinha um meio artístico bastante conservador”.

Diante das fortes críticas, Barnes definiu que iria levar as obras para Lower Merion e colocou em seu testamento que a coleção nunca deveria sair de lá. Foi necessário um verdadeiro corporate takeover para levar a Fundação para a maior cidade da Pensilvânia.

Enquanto esteve em Lower Merion, a Fundação Barnes foi duramente criticada pela elite local por se afastar da maior cidade da região e pelo foco na educação, com críticas de que o Doutor estaria “escondendo” suas obras do interesse público.

Barnes morreu em 1951 em um acidente de carro, sem deixar filhos, e definiu em testamento que o controle da Fundação ficaria com a Lincoln University, uma das mais importantes faculdades historicamente negras dos EUA. Esse foi seu último ato de rebeldia contra uma elite que o criticou durante toda a vida.

O fim do controle da Lincoln sobre o acervo e a ida da Fundação para a Filadélfia fez parte de um projeto do governo estadual para aumentar o turismo na cidade - nada melhor para isso do que ter o melhor acervo de arte moderna europeia dos EUA.

Na década de 1990, a Fundação operava no vermelho após uma sequência de investimentos ruins e lideranças erráticas. Foi quando a Pew Charitable Trusts e as fundações Lenfest e Annenberg começaram a se envolver com a fundação e criaram um fundo patrimonial de US$ 50 milhões para a entidade.

“Ficou bastante claro para mim que eles (as fundações Pew, Lenfest e Annenberg) não iam dar 50, 70, 100 milhões de dólares sem assumir o controle do conselho da Barnes”, disse o então procurador-geral da Pensilvânia, D. Michael Fisher, no documentário “The Art of Steal” (2009). “Eu tive que explicar a eles [ao Conselho de Curadores da Lincoln] que talvez o gabinete do procurador-geral tivesse que tomar alguma medida que poderia mudar a composição do conselho. Quer eu tenha dito isso diretamente ou apenas insinuado, acho que eles finalmente entenderam a mensagem.”

Foi então que a Lincoln University - que até então controlava quatro das cinco cadeiras do conselho - triplicou o número de assentos, com as novas vagas destinadas aos novos doadores. Com a nova maioria, a Fundação aprovou a mudança para a Filadélfia em 2004 em um novo prédio que custou mais de US$ 150 milhões, inaugurado em 2012.

Críticos da mudança dizem que a saída de Lower Merion foi o maior roubo de arte desde a Segunda Guerra Mundial.

Atualmente a Barnes Foundation recebe cerca de 250 mil visitantes por ano, número ainda muito inferior a museus cujas coleções têm foco similar. O Museu d'Orsay recebe cerca de 1,62 milhões de visitantes anuais, enquanto o Museu Metropolitano de Arte de Nova York recebe cerca de 5,7 milhões de espectadores por ano.

Advertisement
Advertisement