As sete salas de exposição temporária do primeiro andar do edifício Pina Luz são ocupadas por cerca de 230 obras, entre desenhos, pinturas, retratos e autorretratos, que revelam a profundidade e a intensidade de Ismael Nery (1900–1934).
Ismael Nery: Armadilha Moderna investiga como a trajetória do artista foi além do modernismo brasileiro, abordando as contradições, a densidade e o radicalismo que marcam sua obra. Nery transitou entre diferentes linguagens — a ilustração, o cubismo e o surrealismo — para expressar suas próprias inquietações.
“No trabalho de Nery, a dúvida, a dualidade e a ambiguidade são colocadas como valor o tempo todo. Isso é uma das coisas mais incríveis de sua obra em relação ao modernismo e à sua própria época. Os anos 1920 e 1930 foram um período de grandes afirmações, como a criação de uma arte moderna que fosse brasileira. Nery abandonou isso em prol de sua subjetividade,” disse Yuri Quevedo, curador da exposição.
Pintor, desenhista, arquiteto, decorador, cenógrafo e poeta, Nery é autor de uma vasta produção focada em retratos e na figuração da anatomia humana. O corpo tornou-se o lugar onde ele investigou a instabilidade da identidade, a fusão entre os gêneros e o desejo religioso de superar os limites do espaço e do tempo.

Naquela época, o autorretrato foi a maneira encontrada pelos artistas modernos de se apresentar e construir sua figura diante de uma sociedade que não tinha mais os compradores fixos da Igreja e da monarquia. “Olhar para os autorretratos de Nery é ver como ele transitava entre diferentes identidades, com total liberdade sobre a própria figura,” disse o curador.
Nascido em Belém do Pará, Ismael Nery se mudou para o Rio de Janeiro com a família aos nove anos. As memórias da Amazônia sempre o acompanharam: o tio-avô religioso, o pai médico e a avó de descendência indígena formaram um universo de referências que moldou sua sensibilidade desde cedo.
Formado pela Escola Nacional de Belas Artes e com passagens pela Académie Julian, em Paris, Nery assimilou as referências da história da arte ocidental e das vanguardas para dar forma, nos anos 1920, ao que batizou de “essencialismo”.

Apesar de sua formação europeia e do contato com artistas franceses, ao caminhar pelas salas, é possível perceber que Nery não abandonou o Brasil como polo para uma produção moderna. O Rio de Janeiro e Belém, sua cidade natal, estão presentes em boa parte de suas reflexões.
A obra Autorretrato Rio / Paris (1927) representa Paris de um lado e o Rio do outro, e as duas cidades têm suas identidades interpretadas na tela. “A divisão entre Paris e Rio de Janeiro, entre cidade e natureza, era muito própria dos artistas modernos brasileiros — mas Nery talvez tenha sido o único que explicitou esse dilema, que disse estar dividido entre as duas coisas, e que as duas contribuíram de maneira igual para seu pensamento,” disse Quevedo.

Através da manipulação do corpo, Nery encontrou uma forma de transformar sua própria identidade, a exemplo da obra Dois irmãos (1927), na qual a face do artista e a de sua mulher, a escritora e poeta Adalgisa Nery (1905–1980), aparecem sobrepostas, representadas como um único organismo espiritual, com os mesmos traços anatômicos.
Adalgisa não era uma musa passiva. A escritora e poeta é retratada de maneira compulsiva em telas e desenhos do pintor e criou um estilo de vida intelectual ao lado do marido. Após a morte de Nery, construiu uma carreira como poeta, romancista, colunista de imprensa e deputada.
Na sala das aquarelas, seu lado mais enigmático se revela. Por trás de uma aparência prosaica, pitoresca e agradável à primeira vista, a complexidade das relações criadas por ele vai se revelando. “A representação do sonho de Nery é muito mais complexa do que parece à primeira vista. Por isso o Nery é uma armadilha: ele vai atraindo a gente, atraindo, atraindo com coisas reconhecíveis — e quando a gente vê, já está preso na arapuca, pensando sobre coisas mais profundas do que esperava pensar,” completa o curador.

A relação do artista com intelectuais e artistas — como Mário Pedrosa, Alberto Guignard e o poeta Murilo Mendes (1901–1975) — também é abordada. Nery encarava a arte como pesquisa espiritual e costumava descartar ou abandonar suas obras após o término. Foi Mendes quem resgatou, catalogou e preservou a maior parte do acervo do amigo, recusando-se a cumprir o pedido feito pelo artista no leito de morte para que sua produção fosse totalmente destruída.
Após a morte precoce de Ismael Nery, aos 33 anos, vítima de tuberculose, sua produção permaneceu por décadas restrita a coleções privadas. Foi em 1965, quando um núcleo de seus trabalhos fez parte da Sala Especial de Surrealismo e Arte Fantástica da 8ª Bienal de São Paulo, que sua obra ganhou reconhecimento crítico.
Ismael Nery: Armadilha moderna
Pinacoteca de São Paulo - Edifício Pina Luz.
Em cartaz até 31 de janeiro de 2027.














