“Digger”: a sátira climática mal compreendida de Hollywood

“Digger”: a sátira climática mal compreendida de Hollywood

Fracasso de bilheteria e de crítica, o filme estrelado por Tom Cruise talvez seja o melhor sobre as mudanças climáticas que já chegou aos cinemas

Detestei tudo no trailer: os prostéticos emplastados na cara de Tom Cruise para envelhecê-lo; o sotaque texano e a arrogância caricatural de seu personagem, o magnata do petróleo Digger Rockwell; o pavoroso boneco animatrônico que faz as vezes do gato moribundo de Digger; o iceberg desgovernado que previsivelmente representa os perigos do aquecimento global. 

Concluí que o novo filme de Alejandro G. Iñárritu seria uma imitação genérica de Dr. Fantástico (Dr. Strangelove). O diretor mexicano só substituiu a bomba atômica, mãe de todos os medos quando foi lançada a genial comédia de Stanley Kubrik, pela grande ameaça existencial de nossos dias: as mudanças climáticas.

Vi essa prévia infeliz de Digger uns quatro meses atrás, quando acompanhei meu filho ao cinema para assistir a Backrooms. Ele tem 16 anos e ainda não viu Dr. Fantástico, mas adorou Cruise no hilário papel do executivo de cinema Les Grossman, em Trovão Tropical.

Naturalmente, quis ver o astro da franquia Missão Impossível em um novo papel cômico.

Adolescentes são resolutos. Meu filho não desanimou nem com o retumbante fracasso comercial de Digger: minguados 37 milhões de dólares de bilheteria global até a semana passada, o que é troco de padaria para uma produção que custou no mínimo 160 milhões.

Anunciou lá em casa que veria o filme na terça-feira. Me convidou para ir junto.

Pois fui. E gostei. Muito.

Sim, Digger tem dívidas óbvias com Dr. Fantástico. Em ambos, personagens poderosos acompanham, impotentes, o desenrolar de uma catástrofe (no clássico de 1964, um bombardeio nuclear à União Soviética ordenado por um general paranoico; no filme mais malhado de 2026, um acidente ambiental de proporções bíblicas causado pela extração irresponsável de petróleo na Groenlândia). 

Iñárritu, porém, não copiou Kubrik. Tampouco fez a comédia escrachada que seu trailer enganosamente vendia. Digger por vezes se distancia da sátira, graças a uma quebra de expectativa ousada – e muito mal compreendida.

Nas exibições antecipadas para críticos, a Warner Bros pediu que eles não revelassem essa virada de chave da narrativa. O estúdio oficializou o medo infantil do spoiler, obsessão contemporânea que empobrece a crítica — e, mais grave, emperra até a conversa sobre cinema em mesa de boteco. 

Desrespeitando seus leitores para obedecer à ordem da Warner, muitos críticos destacaram a esterilidade pós-moderna e o vazio pretensioso de Digger sem explicar o que justificaria essas avaliações tão negativas.   

A tal virada que deveria ser mantida em segredo se insinua logo no início do filme, quando uma cortina é levantada para mostrar uma floresta claramente artificial. O pano que sobe, a mata cenográfica: é tudo uma peça de teatro. 

Tom Cruise faz o papel de um ator que, por seu turno, faz o papel principal de uma peça satírica sobre o bilionário cuja ganância libera forças devastadoras e incontroláveis. E seu gato feioso é só um adereço cênico.

Admito: me senti logrado na primeira sequência em que os atores abandonam o palco, ainda no ensaio, para circular por bastidores, coxias e camarins. 

Estive a ponto de concordar com todas as críticas negativas que eu ainda não havia lido. Mas o intrincado jogo entre a história de Digger e sua encenação vai aos poucos semeando dúvidas e revelando contradições.

A ideia de que o mundo é um teatro tem raízes na Antiguidade clássica. Essa figura de linguagem ganhou até um belo nome latino: theatrum mundi. Quem melhor a expressou foi Shakespeare, no monólogo em que Macbeth diz que vida é um ator ruim que sobe ao palco para contar uma história cheia de “som e fúria” — que nada significa. 

Digger carrega essa velha metáfora para nossos dias de angústia climática. Os acordos de Paris, a COP-30, os painéis climáticos, a ira de Greta Thunberg na ONU — não será tudo teatro?

O próprio Digger age como um ator no teatro da política global. O ápice de sua atuação — que é também o clímax do filme — se dá no discurso que ele profere a uma assembleia de eurodeputados furiosos pelo imenso estrago que a ganância do magnata causou ao continente. 

Digger assume a responsabilidade pela hecatombe, mas não se desculpa. 

A Europa ou o mundo, argumenta, não querem que ele deixe de extrair combustível fóssil. 

Quem dispensaria aquecimento no inverno e viagens para paraísos tropicais nas férias? Os europeus só desejam continuar levando suas “vidas insustentáveis”. O discurso é cínico, mas incômodo. E até a gritaria dos deputados faz parte da mise en scène: são todos figurantes no drama de Digger.

Cruise às vezes perde a medida desse personagem naturalmente teatral. Gravitando em torno do astro, o resto do elenco é irregular. Excelentes atores como John Goodman (o presidente americano) e Michael Stuhlbarg (seu vice) não estão em sua melhor forma. 

Sandra Hüller é explosiva sempre que entra em cena como Emma, a irmã de Digger que comanda a divisão ESB da empresa — mas é um papel pequeno. O filme compensa com folga esses desequilíbrios no discurso apoteótico de Digger e em seu final melancólico.

No ensaio da peça, Kenny (Jesse Plemons, sempre ótimo), o misterioso produtor do espetáculo, faz uma defesa eloquente da comédia: Digger foi uma pessoa horrível e causou muito mal, argumenta ele, e por isso mesmo as pessoas precisam rir desse vilão. 

Essa exaltação às artes cênicas pode soar como um auto-elogio do cineasta (Iñárritu, afinal, também dirigiu Birdman, este, sim, um filme “pós-moderno”, pretensioso e vazio sobre o ofício teatral). 

O fim de Digger, porém, desmente Kenny. Vemos a plateia aplaudindo a estreia da peça com entusiasmo. O sentimento no rosto dos espectadores, porém, não é apenas alegria: há também alguma tristeza – e muita raiva.

Cai o pano. Os espectadores vão deixando o teatro. A cena melancólica que se estende pelos créditos mostra um mundo que a arte não tem o poder de mudar. O mundo que Digger criou. Que talvez nós estejamos criando.

Em seguida, deixei o cinema, junto com meu filho.

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