BOSTON – Assistir televisão nos Estados Unidos não tem sido uma tarefa tranquila nos últimos meses.
E não por conta da miríade de propagandas políticas antes das midterms, mas pelos trailers dos próximos lançamentos de Hollywood, que este ano apostou no gênero de terror como o pièce de résistance da temporada.
Não é incomum estar assistindo a NBC e se deparar com um jumpscare do próximo grande sucesso de bilheteria. Cenas de susto que antes ficavam restritas ao cinema hoje são usadas para chamar público para as salas de projeção. A competição agora é para ver qual filme te tira mais da zona de conforto.
Na última semana, o filme Outra Mamãe estreou em primeiro lugar na bilheteria americana. A marca seria histórica para um filme de terror – que não costuma atrair tanto público quanto outros gêneros – mas não na atual janela de blockbusters de Hollywood: foi o sexto filme do gênero a estrear em 1º lugar nos EUA neste ano.
Os outros foram: Pânico 7, Todo Mundo em Pânico, Resident Evil, Backrooms e Socorro!
Além dos filmes já lançados, ainda vêm aí Cara-de-Barro (estreia em 22 de outubro), Crawlers (16 de outubro), Natal com os Kringles (30 de outubro), Psicopata Vitoriana (13 de novembro) e Lobis-Homem (21 de janeiro de 2027).
Essa onda de filmes de terror está ajudando Hollywood a ter seu melhor ano pós-pandemia.
De acordo com a Rentrak, uma plataforma que acompanha o desempenho comercial dos filmes, o total arrecadado no ano com bilheteria nos EUA até o último domingo está em US$ 8,07 bilhões, uma alta de 19,6% em relação aos US$ 6,75 bilhões registrados no mesmo período de 2025.
Ainda segundo a Rentrak, o mercado americano ultrapassou a marca de US$ 8 bilhões em bilheteria na última semana, 59 dias antes do que em 2025.
O gênero de terror ajudou a impulsionar esse resultado: já arrecadou US$ 1,28 bilhão nos EUA este ano e está a aproximadamente US$ 150 milhões de um novo recorde anual, com 81 dias restantes em 2026.
É difícil entender o porquê dos filmes de terror estarem atraindo tanta audiência, mas o rei do gênero, Stephen King, oferece uma explicação em seu livro Dança Macabra.
“A resposta parece ser que inventamos horrores para nos ajudar a lidar com os horrores reais. Com a inventividade infinita da humanidade, agarramos justamente os elementos que são tão divisivos e destrutivos e tentamos transformá-los em ferramentas para desmantelar a si mesmos. [...] O sonho do horror é, em si, um desabafo e uma sangria, e bem pode ser que o sonho de horror da mídia de massa possa, às vezes, se tornar um divã de analista para a nação inteira,” escreveu King.
A teoria do escritor é que os filmes de terror se tornam recursos para lidar com uma realidade difícil, uma ideia que parece ressoar com o momento atual, com diversas guerras em andamento afetando a economia mundial e uma polarização política cada vez maior.
A frase também pode ser aplicada à onda anterior dos grandes filmes de terror, nos anos 1970, considerada a última “era de ouro” do gênero.
Enquanto o mundo lidava com o acirramento da Guerra Fria, a Guerra do Vietnã, o choque do petróleo de 1973 e o setembro negro, as salas de cinema ficavam lotadas para ver filmes como O Exorcista (1973), O Massacre da Serra Elétrica (1974) e Alien (1979).
A comparação entre o momento atual do gênero e aquele dos anos 1970 foi feita também pelo produtor Jason Blum, CEO da Blumhouse Production, responsável por alguns clássicos recentes do cinema de terror como Corra! (2017), a série Atividade Paranormal e M3gan (2022).
“Para mim, há quase um clima dos anos 1970, de uma nova geração de jovens fazendo filmes ousados que estão se conectando com o público nos cinemas de um jeito maluco,” disse Blum ao comentar os sucessos de bilheteria de Backrooms e Obsessão este ano. “O que acho tão incrível [nestes longas] é que são um novo tipo de filme. Foram feitos por diretores não tradicionais, diretores que realmente aprimoraram suas habilidades como criadores na internet.”
Ao exaltar os diretores desses filmes, Blum também ressalta outro aspecto importante da onda atual de filmes de terror: são por eles que estão surgindo novos diretores como Jordan Peele, Ari Aster e Robert Eggers.
O momento atual de Hollywood é de evitar riscos de qualquer maneira. Com altos custos de produção e distribuição, a indústria aposta cada vez mais em histórias conhecidas e franquias famosas para evitar grandes rombos no orçamento.
Neste cenário, os filmes de terror são uma ótima forma de fazer apostas, pois historicamente são mais baratos e têm público cativo, fazendo com que as produtoras aceitem o risco. Backrooms é talvez o melhor exemplo disso: o filme custou US$ 10 milhões mas arrecadou mais de US$ 400 milhões em todo o mundo.
Há ainda outro fator do gênero que conversa com o momento atual global: a dicotomia.
Em um mundo polarizado, a tendência entre os espectadores é buscar sempre um mocinho e um vilão na tela. Por conta disso, filmes moralmente ambíguos como Digger (com Tom Cruise) acabam sendo mal recebidos porque o espectador fica confuso para quem “torcer”.
Filmes de terror não deixam margem para dúvida quando um dos personagens persegue o outro com uma motosserra. O espectador senta na sala do cinema e nos primeiros 10 minutos já sabe para quem torcer, quem odiar e quem é inútil.
Em uma quadra da história em que o subtexto é um artifício de linguagem cada vez mais raro e que as pessoas insistem em se dividir sempre entre dois grupos, ter obras que confirmam essa visão dicotômica do mundo parece agradar quem busca no cinema um refúgio da realidade.














