Diário de uma man-eater: capítulo 5

Diário de uma man-eater: capítulo 5

Os relatos íntimos de uma recém-divorciada de 45 anos

Beats Per Minute  

Precisava de mais um drinque antes de voltar para casa. Sóbria, talvez tivesse alguma empatia pela pessoa que chega de bike e toma suco no primeiro date.

Emendei um quase pranto numa crise de riso torta. Forte, longa, deliciosa. Daquelas que dão cólica.

“Posso me divertir com você?” A frase aqueceu o lado direito do meu pescoço e subiu até a orelha em arrepio.

Engoli o choro, mastiguei o riso. E tive outro acesso. Meu corpo inteiro se contorcia.

Ele parecia gostar de assistir.

Apoiei os cotovelos no balcão e respirei devagar, esperando o corpo entender que já podia parar.

Pedi outro martini.

“E uma água também.”

Revirei os olhos. Ele sorriu.

Tinha os dentes muito brancos, mas não naquele tom Mentex que usam por aí. Bom sinal, não fuma. Linhas discretas no canto dos olhos apareciam quando ria de verdade. Também não faz procedimentos, ufa. Um ou outro fio branco. Nem magrelo nem sarado. Tipo do homem que não precisava acontecer numa terça-feira solta.

Ficamos alguns segundos observando o movimento do bar em silêncio. Olhei para o copo vazio, para minha bolsa aberta, para o borrado do batom refletido na lateral cromada do balcão.

Não sei dizer em que momento meu corpo percebeu que era hora de acelerar.

Talvez tenha sido a música.

Talvez o terceiro drinque.

Talvez nada daquilo estivesse acontecendo.

Sentia meus batimentos na garganta. Nem no spinning meu coração batia assim.

Tentei respirar fundo.

De repente, as contrações de novo. Um som escapou antes que eu conseguisse reconhecê-lo como meu.

Precisava sair daquele lugar.

Alcancei uma garrafa de água na bandeja do garçom e derramei o líquido gelado na cabeça.

O vestido grudou na pele. Meu corpo ignorou completamente a informação.

Alguém então derrubou um copo. Crac.

Abri os olhos. Ele continuava ali.

A camisa mais amassada. Os cabelos bagunçados escondiam os brancos.

A água escorria pelo meu pescoço e desaparecia dentro do vestido.

O estrago era todo meu.

Voltei a ouvir as vozes. O bar. Os talheres. A máquina de cartão. O toque do gelo no vidro.

A música mudou de novo. Me deu vontade de acender um cigarro, mas lembrei que não fumo.

“Na minha casa ou na sua?”

Que parte ele não entendeu?

Ajeitei a bolsa no ombro, joguei umas notas amassadas no balcão e saí sem me despedir a tempo de pegar o táxi que terminava uma corrida ali na frente.

Jardim Pernambuco, sem pressa.

Só quando o carro dobrou a esquina tive coragem de olhar para trás.

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