Tem um homem triste na televisão

Tem um homem triste na televisão

Filmes e séries estão dando cada vez mais espaço à vulnerabilidade e aos conflitos emocionais de seus personagens masculinos

Ted Lasso voltou para uma nova temporada na Apple TV+ depois de três anos. Agora, Ted treina um time feminino de futebol. No intervalo de um jogo, ele tenta explicar às jogadoras por que elas não deveriam ter vergonha de tentar e fracassar.

O discurso que vem a seguir caminha por um terreno onde é muito fácil perder o espectador. Só que Jason Sudeikis, criador e intérprete de Ted, tem uma capacidade extraordinária de fazer essas coisas funcionarem. 

Ele fala olhando um pouco para cima, aperta as pálpebras parecendo que vai chorar, depois esboça um sorriso. No fim das contas, é como se ele fizesse um esforço enorme para contar uma coisa difícil sem tratá-la como uma coisa difícil.

Então Ted fala de uma foto. Dias antes, algumas jogadoras o viram comendo um cachorro-quente sozinho e acharam a cena digna de registro. Ele diz que nunca se considerou um cara solitário. 

Mas que, se encontrasse aquela foto por acaso, provavelmente pensaria que estava olhando para o homem mais sozinho do mundo. A foto, diz Ted, o deixou envergonhado. É assim que ele chega ao que queria dizer às jogadoras: vergonha talvez seja uma das emoções mais inúteis que existem.

Não é exatamente uma grande cena dramática. E não é só “Ted Lasso” que anda interessado no que se passa com um homem quando, aparentemente, não está acontecendo muita coisa.

Falando a Real, também da Apple TV, é praticamente uma história sobre luto, saúde mental masculina e vulnerabilidade disfarçada de comédia pastelão. Em O Urso, encerrada em junho na Disney+, o chef Carmy transforma o trabalho que ama em uma máquina de punição. Em Pela Metade, na HBO, a relação entre seus personagens masculinos é atravessada por sentimentos que eles não aprenderam a organizar. Também na HBO, a premiada DTF St. Louis mostra dois homens heterossexuais procurando um no outro uma intimidade que não sabem muito bem onde mais encontrar.

Até O Convite, um filme que certamente não precisa de mais um texto que o analise, coloca um homem infeliz no centro da roda. Joe, personagem de Seth Rogen, diz que fracassou, que arruinou a própria vida. A mulher dele lista evidências em contrário, para depois devolver o desconforto: “você nem toca mais o piano que costumava amar”.

O psiquiatra e escritor Filipe Batista lembra que um sentimento não desaparece só porque alguém não consegue entendê-lo ou colocar um nome nele. Ele pode acabar aparecendo em outros lugares: na irritação, no isolamento, nas relações. “Às vezes, a pessoa passa a agir aquilo que não consegue pensar.”

No caso dos homens, algumas emoções sempre foram mais fáceis de admitir do que outras. “É mais aceitável dizer ‘estou com raiva’ do que ‘estou com medo’, ‘estou triste’ ou ‘estou me sentindo abandonado’,” explica Filipe.

Não chega a ser uma novidade ver homens sofrendo na ficção. Inclusive seria uma tese bastante difícil de sustentar depois de alguns milhares de anos de literatura. Werther, o personagem mais célebre de Goethe, já passou centenas de páginas sofrendo por amor no século XVIII — e resolveu a questão com um tiro na cabeça.

Talvez a novidade esteja no tamanho dos problemas. Esses homens de hoje, no cinema e na televisão, não vivem necessariamente situações extraordinárias. São homens às voltas com coisas quase banais: trabalho, casamento, amizade, paternidade, envelhecimento, desejo, fracasso, solidão. 

Antes, a intimidade masculina parecia pequena demais para sustentar uma história por si só. Ajudava ter uma guerra, um crime, um campeonato, uma missão, uma banda.

Filipe enxerga uma mudança parecida. “Durante muito tempo, a masculinidade esteve associada à ideia de suportar, resolver e seguir em frente. O sofrimento aparecia como raiva, fracasso, excesso de trabalho, álcool, violência ou silêncio. Há hoje uma possibilidade maior de mostrar que, por trás dessas manifestações, existe também alguém que não sabe muito bem o que fazer com aquilo que sente,” diz.

 O maravilhoso, subestimado e, possivelmente, incompreendido Eu Te Amo, Cara, de 2009, fez uma comédia inteira sobre o constrangimento da intimidade compartilhada. Peter, personagem de Paul Rudd, está prestes a se casar quando descobre uma ausência meio absurda na própria vida: não tem um amigo próximo o bastante para ser seu padrinho.

A busca de Peter por um amigo é engraçada justamente porque não existe protocolo. Ele sabe convidar uma mulher para sair, mas não sabe como dizer a outro homem que gostaria de ser seu amigo. Peter queria muito pouco: alguém com quem ouvir sua banda favorita, tocar baixo, falar besteira.

Filipe diz que isso não significa que homens não construam intimidade entre si. “Existe uma intimidade masculina que pode ser muito intensa, mas que nem sempre passa pela palavra.” Muitos homens, diz, aprenderam a construir vínculos fazendo coisas juntos, pela camaradagem, pela brincadeira, pela competição.

Dezessete anos depois de Eu Te Amo, Cara, a situação de Peter parece bem menos absurda. Uma reportagem recente da revista The Cut falou de homens vivendo algo bastante parecido fora da ficção. 

A jornalista Monica Corcoran Harel ouviu mulheres cujos maridos foram deixando amizades pelo caminho e, aos poucos, passaram a depender delas para boa parte da vida social e emocional. 

Há até um nome para o papel assumido por algumas dessas mulheres: mankeeping, termo criado por pesquisadores de Stanford para descrever o esforço de manter de pé as redes de amizade dos homens com quem vivem.

Quando a parceira se torna a única pessoa com quem um homem consegue falar de medo, fracasso, desejo ou fragilidade, diz Filipe, “isso coloca sobre a relação uma carga pesada, difícil de sustentar.”

Em 2009, Eu Te Amo, Cara fazia comédia com um homem tentando encontrar lugar para uma parte da própria vida que nunca tinha aprendido muito bem a cuidar. Hoje, isso já não precisa virar piada.

Uma das cenas mais lembradas de Ted Lasso começa simplesmente com Ted diante de um quadro. Sozinho no Museu Van Gogh, em Amsterdã, ele olha para Girassóis quando um funcionário se aproxima. O homem diz que o pintor tinha seus demônios, mas que eles nunca o impediram de procurar beleza. Ted continua olhando para o quadro e seus olhos se enchem de lágrimas.

Ninguém explica Ted para Ted. Não há uma grande revelação, uma tragédia, sequer uma conversa sobre aquilo que ele sente. O funcionário do museu só está contando a história de um artista morto há mais de um século e, sem querer, encontra uma frase que serve para o homem parado na frente dele.

 Seria previsível demais concluir que esses homens finalmente aprenderam a falar. Em O Urso, Carmy continua falhando miseravelmente na missão. Joe, em O Convite, precisa que uma roda de pessoas à sua volta explique sua infelicidade para ele. 

Em Falando a Real, Jimmy é um terapeuta viúvo que precisa se aproximar do homem que causou a morte de sua mulher para conseguir lidar com a própria culpa. Clark, em DTF St. Louis, deixa um monte de coisa escapar sem parecer entender muito bem o que está dizendo.

Tradicionalmente, o sofrimento de um homem era uma maneira de fazer a história andar. Ele bebia, trabalhava mais, brigava, traía alguém, sumia. Às vezes matava alguém, às vezes a si mesmo. A dor precisava virar outra coisa muito rápido. 

Agora, também cabe o homem parado diante de um quadro. Ou o que não toca mais o piano, ou o que trabalha até tarde porque voltar para casa parece uma ideia pior. Ou o que percebe, já adulto, que não tem para quem telefonar sem inventar um motivo.

Se esses homens estão aparecendo de outro jeito na ficção, é também porque alguma coisa mudou fora dela. Vulnerabilidade, solidão e dificuldade emocional ganharam espaço na maneira como falamos da experiência masculina. 

Para Filipe, porém, o caminho funciona nos dois sentidos. “Ver um personagem viver algo que nos é familiar pode produzir um reconhecimento muito particular: ‘é disso que eu estou falando, embora ainda não soubesse’.”

O homem triste sempre esteve por aí. O que parece ter mudado é a disposição de ficar olhando para ele quando ele não faz nada de particularmente interessante com a própria tristeza. Às vezes ele nem sabe que está triste, só está comendo um cachorro-quente sozinho.

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