Meu clube é um autódromo

Meu clube é um autódromo

Com pista, garagens para guardar a coleção de automóveis e hospedagem, os clubes-autódromo começam a chegar ao Brasil

A cada dois meses, religiosamente às sextas, Paulinho Kalassa chega com a família ao Raceville Speed Club, em Brotas, a 240 quilômetros de São Paulo, para deixar seus carros preparados para o fim de semana. 

No sábado, ele e seu filho acordam cedo, andam ora com os Fórmula Ford, ora com a Mitsubishi Evo de competição ou a Alfa GTV antiga, também de competição, até a hora do almoço. À tarde, voltam à pista para mais algumas voltas e depois reúnem a família toda e quem mais estiver como convidado naquele fim de semana para uma bateria de kart no fim do dia.

Se ainda der tempo, vão todos para a piscina antes de saírem para jantar no restaurante do clube. No domingo, antes de voltar para São Paulo, ainda sobra tempo para pegar o UTV e ir até a cachoeira.

A rotina de Kalassa, cofundador e sócio da 3 Seg Seguros, resume a ideia de um negócio que vem se desenhando no Brasil com sucesso: o entusiasta de carro esportivo não se contenta mais em apenas comprar o automóvel e participar de um evento pontual em uma pista alugada, quer um lugar onde possa acelerar pra valer com segurança, o direito de voltar quando quiser e, se preferir, deixar seus carros a poucos metros do asfalto. É o que Kalassa fez. 

Ele é um dos pouco mais de 150 associados do Raceville, clube de automobilismo inaugurado em novembro de 2024 no interior paulista, instalado em uma antiga fazenda de café. Cada um dos 500 títulos disponíveis custa R$ 500 mil e dá acesso a um autódromo de 4,5 quilômetros, kartódromo, pistas de UTV e off-road, restaurante, piscina e áreas de lazer. Rubens Barrichello, Ingo Hoffmann e Maurizio Sala são alguns dos pilotos que frequentam o espaço.

Kalassa acabou de inaugurar por lá um galpão que comporta 12 automóveis, embora hoje abrigue seis, além de duas motos e um UTV. O espaço, chamado de carina — uma marina para carros —, prevê piso de epóxi, elevador, mesa de trabalho, sofás, capacetes e macacões nas paredes, em uma versão de garagem americana, como ele descreve. “Desde que comecei a frequentar track days, entendi que o lugar certo para acelerar é na pista, não na rua. É um caminho sem volta,” diz ele.

O modelo começa a ganhar variações no Brasil e todos partem da mesma aposta: transformar o hábito esporádico de pilotar em uma prática de fim de semana, com carro, família, amigos e infraestrutura para todos. 

Em Tremembé, a cerca de 20 minutos de Campos do Jordão e 50 minutos de São José dos Campos, o Mantiqueira Speedway Club vende 105 lotes de mil metros quadrados em volta de uma pista de 3 quilômetros com revestimento em SMA, sigla de stone mastic asphalt, considerado o melhor asfalto que existe. 

Em Curvelo, a 150 quilômetros de Belo Horizonte, o Casa de Pista se apresenta como um condomínio integrado ao Circuito dos Cristais, autódromo de 4.4 quilômetros que recebe algumas das principais categorias nacionais e abriga o único circuito oval do país. 

Niko Ramos, piloto bicampeão de motovelocidade e sócio da Pilotech, centro de treinamento de pilotagem em São Paulo, acompanha essa mudança de perto. “Eu acho bizarro o crescimento de dois anos para cá de proprietários de superesportivos que estão levando suas supermáquinas para eventos de track day. Há cinco, seis anos, não víamos isso,” conta ele. 

Parte da explicação desse novo comportamento está no próprio carro. Eduardo Schkair, fundador do Motorgrid, o maior grupo de proprietários de supercarros da América Latina, afirma que os esportivos de rua passaram a suportar um dia inteiro de autódromo sem exigir o mesmo tipo de reparo que exigiam no passado. “Dez anos atrás, esses carros não tinham a mesma durabilidade de hoje. Agora é possível rodar até o autódromo, usar a pista e voltar para casa dirigindo o mesmo carro,” diz ele. Essa evolução ajudou a aproximar do circuito quem antes via o carro de alta performance como peça de coleção ou objeto para um passeio curto de fim de semana.

O Motorgrid, que reúne mais de quatro mil proprietários de esportivos, leva os membros ao Velocitta, em Mogi Guaçu, no Track & Friends, um evento fechado. Schkair diz que os carros mais usados hoje são Porsche, BMW e GR. “Lamborghini aparece cada vez mais, e Ferrari também,” conta. 

Esse fenômeno não nasceu aqui. No Japão, o Magarigawa Club abriu em 2023, a uma hora de Tóquio, com um circuito de 3,5 quilômetros, 22 curvas, piscina de borda infinita, spa, águas termais e nove vilas voltadas para o traçado. Em Silverstone, na Inglaterra, o Escapade entregou 60 residências junto ao circuito que sedia o Grande Prêmio britânico de Fórmula 1, com piscina, academia e sauna a poucos metros da pista. Nos Estados Unidos, o Flatrock Motorclub, no Tennessee, reúne circuito, garage lofts, vilas e clubhouse; o P1 Motor Club, na Flórida, acrescenta kartódromo, pista de rally, área de drift e garagens que também funcionam como casas de fim de semana. Na Austrália, o Black Rock Motor Resort está sendo erguido em uma antiga área de mineração.

Esses projetos estão reunidos no Motorsports Club of Clubs, rede criada em 2019 pela Tilke, escritório do arquiteto alemão Hermann Tilke, responsável por projetar boa parte dos circuitos do calendário da Fórmula 1.

 O Raceville é o primeiro clube brasileiro em operação listado pela organização. O traçado de sua pista de 4,5 quilômetros – batizada em homenagem a Sylvio Alves de Barros Netto — sócio-fundador do clube e criador da WebMotors, morto em 2024 —, permite cinco configurações possíveis e acompanha o relevo onde o clube foi instalado. Para chegar ao desenho final, a equipe de Cacá Clauset, fundador do Raceville e sócio-fundador do Haras Tuiuti Motor Park, campo de provas multiuso criado para abrigar eventos automotivos e motociclísticos, sobrepôs plantas de circuitos famosos ao terreno. A referência que melhor coube foi Silverstone. “Não 100%, encaixou 60%”, diz ele. 

No Mantiqueira, a mesma proposta aparece por outro caminho. Tarso Marques, ex-piloto de Fórmula 1, Indy e Nascar, é embaixador do projeto e assina o desenho do clube, do shopping e das loft garages. Os 105 lotes têm mil metros quadrados cada, todos voltados para a pista, e podem ser ocupados em até 70% da área. Com mezanino e laje aproveitada como rooftop, a construção pode chegar a 2.100 metros quadrados. 

“Quando entrei no projeto, encontrei uma pista com configuração mais lenta, com curvas de primeira e segunda marcha, e uma coleção de galpões prevista ao redor do circuito. Mudei o raio das curvas, alterei o conceito das construções e desenhei um clube para receber famílias, não apenas quem vai pilotar,” disse. 

Matheus Dias, diretor do empreendimento pelo grupo MDS, descreve as loft garages como extensões das casas. “Nos dias de corridas oficiais, sua garagem vira um camarote — de qualquer ponto você enxerga todo o traçado da pista,” disse. 

Além do asfalto SMA, a pista recebeu uma área de escape projetada com mais de 15 metros de asfalto poroso angulado no lugar da brita. “A gente entende que não está lidando com pilotos profissionais, mas com entusiastas. A pista tem que ter uma segurança extra para garantir que todos aproveitem sem danificar as máquinas.” O complexo terá ainda kartódromo, heliponto, posto com gasolina premium e um shopping de 10 mil metros quadrados.

Nem todo entusiasta, porém, quer fixar sua relação com o carro em uma única pista. Marceu Perroni, ex-executivo do mercado de capitais e hoje sócio da Fato Motorsport, começou a frequentar track days em 2018. “Acho superlegal e valorizo quem faz, mas eu não compraria uma casa dentro de um clube desses. Prefiro ter liberdade para escolher: hoje correr no Velocitta, amanhã no Raceville. É uma onda ousada, que mexeu com o mercado, mas acho que vai chegar a um platô. E ainda há uma questão para entender: o barulho perto das casas.”

A maneira de pertencer aos clubes pode dividir opiniões, mas ninguém discute que o prazer de pilotar encontrou, finalmente, o lugar certo.

Siga o Page9 no Instagram — e assine a newsletter