Ter US$180 mil disponíveis não garante um Vanguart. A relojoaria suíça fabricou menos de 200 relógios desde que foi fundada, em 2017, somando todos os modelos.
Sam Altman, CEO da OpenAI, conseguiu sete de uma vez só. Ficou com um e entregou os outros seis à liderança da empresa.
O modelo em questão é o Orb Flying Tourbillon em titânio, um relógio mecânico montado à mão. O homem que passa os dias falando de inteligência artificial geral foi buscar seu símbolo de status numa tecnologia do século 19.
O turbilhão, coração da peça, é quase uma provocação. O mecanismo foi criado em 1801 para compensar o efeito da gravidade sobre a precisão dos relógios de parede, e num relógio de pulso, que está sempre em movimento, não tem função prática. Nenhum chip, nenhuma bateria, nenhuma atualização de software. Só engrenagens, molas e algumas centenas de horas de trabalho manual.
As gravações são o que trazem a peça para o presente. O logo da OpenAI ocupa o lugar do 12, e o rotor leva uma frase do próprio Altman: “Compute is Destiny” (“Computação é Destino”, na tradução livre). Na coroa está escrito “SCALING” (“aumentar a escala” no contexto da AI).
No fundo da caixa, a gravação de um código em Python — if AGI.aligned: deploy() —, comando que “vazou” quando Axel Leuenberger, cofundador da Vanguart, explicou ao Wall Street Journal seu significado: “se a AGI estiver alinhada, faça o deploy”, ou seja, só libere a inteligência artificial geral se ela for segura e alinhada aos valores humanos.
É uma piada interna transformada em joia.
Ao mesmo jornal, Mehmet Koruturk, presidente da Vanguart, disse: “Quem não conhece, vê um relógio estranho. Quem conhece, entende que o dono faz parte de um grupo de sete pessoas.”
Abaixo da cúpula, a febre se espalhou de outro jeito. A OpenAI distribuiu cerca de 400 Tudors com o logo da empresa e a frase “Good Research Takes Time” no fundo da caixa. Funcionários de outras empresas de tecnologia, como a Uber e a Palantir, também passaram a exibir Tudors de edição limitada com a marca do empregador.
No mercado de usados, essas peças chegam a US$10.500, mais que o dobro do preço de loja. O relógio corporativo virou crachá, e o crachá passou a ter cotação.
O luxo, nesse caso, é o acesso. E a Vanguart foi montada para controlá-lo.
A marca nasceu na sala de estar de Leuenberger, em Basel. Ele e o diretor técnico, Jérémy Freléchox, vieram da Audemars Piguet Renaud & Papi, laboratório que desde os anos 1990 desenvolve as mecânicas mais ousadas da relojoaria suíça e onde a Richard Mille começou.
O primeiro modelo, o Black Hole, saiu da tese de faculdade do diretor criativo, Thierry Fischer: um relógio sem ponteiros, desenhado sem a preocupação de saber se algum movimento conseguiria fazê-lo funcionar. Lançado em 2021, estreou custando CHF 320 mil.

Koruturk trouxe a rede de contatos. Vindo do mercado financeiro, conheceu a relojoaria trabalhando num fundo de private equity dono de uma equipe de Fórmula 1. Foi ele quem levou a marca aos pulsos certos. James Harden, astro da NBA, começou como embaixador global e virou acionista. Em 2025, Michael Jordan apareceu numa rara entrevista na TV usando um Orb, e a marca fez questão de divulgar.
Identificar o relógio de executivos em aparições públicas virou quase um esporte para quem ama relógios, em que o pulso é lido como declaração de identidade e de pertencimento.
Durante muito tempo, a regra no Vale do Silício era outra. Bill Gates usa há anos um Casio que custa algumas dezenas de dólares e Jensen Huang, da Nvidia, já declarou publicamente que dispensa relógio de propósito, porque o momento presente é sempre o mais importante. Dinheiro demais para precisar mostrar.
Essa discrição vem perdendo força. Até Mark Zuckerberg, que passou anos de camiseta cinza, virou um colecionador respeitado de relógios, e já disse que nunca tinha feito questão de usar um até ver uma peça específica e achar aquilo interessante. Altman, por sua vez, já tinha sido visto com um Greubel Forsey avaliado em cerca de US$650 mil.
Na Vanguart, a vitrine nunca foi o canal principal e só ter dinheiro não basta. No começo, os sócios vendiam discretamente para conhecidos e para colecionadores que chegavam por indicação. Nos Estados Unidos, há uma única loja que representa a marca: a Material Good, no SoHo, em Nova York.

Em entrevista à revista Monocle, Koruturk definiu o cliente da casa numa frase: “Este não seria o primeiro relógio de ninguém.”
No pulso de Altman, uma frase sobre o poder da computação gira presa a um mecanismo inventado há mais de dois séculos, que continua sendo disputado.
Resta saber se alguém, daqui a duzentos anos, vai pagar caro para ter por perto a tecnologia que ele está construindo agora.















