Na manhã de 1º de maio de 1994, Ayrton Senna estava sentado à esquerda de Érik Comas na reunião dos pilotos antes do Grande Prêmio de San Marino, no autódromo de Ímola, na Itália. O austríaco Roland Ratzenberger havia morrido na classificação do dia anterior, e Rubens Barrichello escapara de um acidente grave na sexta-feira.
Os dois combinaram um encontro em Londres na semana seguinte para discutir segurança e organizar uma reunião antes da corrida de Mônaco. Comas se preocupava com o assunto desde que Senna havia parado sua McLaren no meio de um treino para socorrê-lo, quase dois anos antes. Naquela tarde, seria o francês quem chegaria à curva Tamburello e encontraria o brasileiro sendo atendido pelos médicos.

Hoje aos 63 anos, Comas está em São Paulo para o Grande Prêmio de Interlagos e conversou com o Page9 durante o Rosewood Talks. Foi em Interlagos, inclusive, em 24 de março de 1991 que ele disputou sua primeira corrida na Fórmula 1, pela Ligier, depois de não conseguir se classificar em Phoenix.
Naquele dia, Senna conquistou sua primeira vitória em casa, com o câmbio perdendo marchas, e terminou a corrida exausto. “Brasil, Interlagos e Senna, para mim, está tudo ligado. É uma coisa só,” diz Érik. Comas começou tarde no esporte e precisou esperar a maioridade para competir.
Seu pai mantinha uma pequena oficina em Romans-sur-Isère, no sudeste da França, e um dos mecânicos competia de kart. Em 1976, aos 13, experimentou o automóvel e decidiu que era aquilo que queria fazer, mas o pai proibiu. Só começou aos 18 anos e, aos 20, tornou-se campeão francês. Queria correr de rali, mas não tinha dinheiro para comprar um carro. O kart e, depois, os monopostos ofereceram outro caminho.

Para entrar na escola de pilotagem Winfield, no autódromo de Paul Ricard, no sul da França, Comas gastou todas as suas economias. A escola selecionava os cinco melhores entre cerca de 300 alunos para uma final que financiaria a temporada do vencedor na Fórmula Renault.
Comas ganhou a disputa em 1984 e uma bolsa de Fr 1 milhão para correr no ano seguinte. “Não foi uma loteria, foi um concurso. Sem aquilo eu nunca estaria aqui hoje,” diz. Foi campeão francês de Fórmula 3 em 1988 e da Fórmula 3000 Internacional, então a principal categoria de acesso à Fórmula 1, em 1990. Quando chegou à Ligier no ano seguinte, já estava acostumado a vencer.
Já na Fórmula 1, não encontrou um carro que lhe permitisse repetir esses resultados. Correu dois anos pela Ligier e outros dois pela Larrousse, enquanto as equipes da frente incorporavam recursos, como câmbios semi automáticos, controle de tração e suspensão ativa. “Eu já pilotava um Fórmula 1 histórico, mas ainda não o chamávamos assim,” diz. Foi durante seu segundo ano na categoria que perdeu um dia inteiro da memória.
Em 28 de agosto de 1992, na terceira volta do treino livre para o Grande Prêmio da Bélgica, Comas bateu em Blanchimont, uma curva rápida à esquerda do circuito de Spa-Francorchamps. Ficou desacordado, com o pé ainda no acelerador e o motor funcionando. Senna parou sua McLaren, saiu do carro e correu até a Ligier, enquanto outros pilotos passavam pela pista.
Desligou o motor e sustentou a cabeça do francês até a chegada do socorro. Comas acredita ter despertado no helicóptero que o levava ao hospital, mas não se lembra do acidente, do resgate ou de qualquer outra coisa daquele dia.
No dia seguinte, o gerente da Ligier o levou ao box da McLaren para agradecer. A extensão do que Senna havia feito, porém, só ficaria clara aos poucos, com os relatos de fiscais de pista, fotógrafos, mecânicos e integrantes da equipe.
Algumas imagens chegaram a Comas apenas muitos anos depois. “Parecia que a memória daquele acidente pertencia a outras pessoas,” diz. Sem ferimentos aparentes, teve problemas de visão e de equilíbrio e levou três meses para recuperar a capacidade de acelerar no limite. “Conhecemos Ayrton Senna como o piloto mais rápido. Naquele caso, ele foi o homem capaz de parar porque entendeu a gravidade da situação.”

O resgate o aproximou de Senna, mas não desfez inteiramente a distância que mantinha de seu ídolo. Comas conta que foi educado para não incomodar e evitava tomar o tempo de alguém sempre cercado por jornalistas, fãs e engenheiros. Agradeceu muitas vezes, conversou com ele nos fins de semana de corrida, mas esperava uma oportunidade de estar com o brasileiro fora daquele ambiente. “Quando ele morreu, senti que não tinha feito o suficiente.”
Em Ímola, no dia 1º de maio de 1994, Comas estava nos boxes quando Senna bateu. Outro carro havia tocado sua Larrousse durante o período de safety car, e a equipe consertava a asa traseira. Uma falha de comunicação entre a direção da prova e a equipe fez com que fosse liberado para voltar à pista, embora a corrida estivesse interrompida por bandeira vermelha.
Chegou à Tamburello e encontrou o helicóptero, a ambulância e os médicos em volta de Senna, deitado ao lado da Williams. Desceu do carro e foi até ele. Os médicos pediram que se afastasse. “Para todo mundo, foi um momento terrível. Para mim, foi uma situação íntima, devastadora.”
Não voltou para a relargada. Caminhou até o box e disse à equipe que iria para casa: a Fórmula 1 havia terminado para ele. Nos dias seguintes, recebeu ligações de pilotos e dirigentes pedindo que reconsiderasse. Diziam que Senna não gostaria que parasse daquela maneira. Comas fez testes em Paul Ricard, disputou o Grande Prêmio de Mônaco e continuou correndo naquele ano. Sua última prova na categoria foi no Japão, em novembro. “Mas eu já não estava mais ali.”
Levaria dez anos para conseguir falar sobre o que viveu em Ímola e vinte para visitar o túmulo de Senna, em São Paulo. “Meu coração ainda bate graças a ele,” diz o ex-piloto que só conseguiu se reencontrar no Japão, país que lhe deu a distância da Fórmula 1 que procurava e um carro com o qual podia voltar a ganhar.
Entre 1995 e 2006, correu no país, onde passava cerca de seis meses por ano. Aprendeu a língua, conheceu outra cultura e reencontrou o reconhecimento das equipes e dos torcedores. Foi bicampeão da GT500, a principal categoria do campeonato japonês de GT, disputado por carros esportivos, em 1998 e 1999, com o Nissan Skyline GT-R da Nismo. “Para mim, foi uma ressurreição. Eu não conseguia mais ficar na Europa depois do que aconteceu na Fórmula 1. Voltei a ter um carro competitivo. Podia ganhar uma corrida, podia ganhar um campeonato.”
Depois das pistas japonesas, conseguiu realizar o plano que não havia podido bancar na juventude. Passou a correr de rali e, em 2017, aos 54 anos, conquistou com um Lancia Stratos o título da Categoria 2 do Campeonato Europeu de Rali Histórico. Era o décimo título de sua carreira. Venceu a última prova e decidiu que bastava: dessa vez, encerrou a carreira de competição depois de ganhar.

Hoje, mantém um contrato com a Nissan e tem um R390 GT1 que disputou as 24 Horas de Le Mans de 1998, restaurado e autorizado a rodar nas ruas. Comas também correu aquela edição com um R390. “Sou convidado para muitos eventos de carros clássicos. No ano que vem, estarei nos Estados Unidos com esse carro. Estou me divertindo. Ainda são carros, mas sem o cronômetro.”















