Todo prédio em Portugal tem uma hierarquia que nenhuma ata de condomínio registra. A eminência parda pode ser a moradora mais antiga, que do alto de seus 89 anos decide como e quando serão limpas as escadas, ou o senhor da cave, cujo aluguel ainda foi assinado em escudos e recebe reajustes que hoje não pagam um flat-white-decaf-soy-milk no Chiado.
O proprietário, que tem idade para ser filho do inquilino, acende velas a Santo António (padroeiro de Lisboa) pela partida dele, mas quem vive de consulta em consulta médica é o devoto. Enquanto isso, o velhinho atravessou a pandemia sem um espirro e sobe a ladeira todas as manhãs para comprar o jornal e comer suas torradas – com manteiga suficiente para incendiar o feed de um vegano.
No meu edifício, o topo da cadeia fica no rés-do-chão, onde mora uma chihuahua de nome Maria que se nomeou porteira e exerce o cargo em tempo integral. Quem sobe ou desce passa pela sua jurisdição ouve o recado, que vem com sangue nos olhos e latindo para burro. A vizinha, a rigor, é do Feijão, meu vira-lata burguês sem-vergonha de rigorosos 27,9 quilos que não quer confusão com alma viva. Diante dela, ele desvia o focinho e apressa a marcha, enquanto eu, atrás, sorrio amarelo para a dona, pedindo desculpa por um incômodo que julgamos não ter causado.
Na física universal dos latidos, o volume é inversamente proporcional ao tamanho. E quanto menor o cão, e talvez a pessoa, maior a chance de ela tentar se impor no grito para ver se cresce. Sim, a lenda é lei: todo baixinho é abusado – ou, como dizem os portugueses, “homem pequenino? Ou velhaco ou bailarino?” Eu tratava o ditado como bullying de recreio tijucano até me mudar para Lisboa e dar de cara com a Maria, o provérbio em pessoa, ou melhor, em cachorro.
Ampliada à escala nacional, a Maria vira Portugal: um território diminuto com memória imperial agigantada, o chihuahua convencido de que nasceu mastim, capaz de arreganhar os dentes para o espelho por desconfiar do próprio reflexo.
A Maria faz cara de brava até para a dona quando ela traz a ração, e o português segue a mesma etiqueta. O rosnado dispensa motivo e acompanha inclusive os gestos de carinho, de modo que o afeto local aparece sempre de dentes à mostra.
A vizinha do segundo andar me entrega um saco de peras de sua quinta reclamando que o ano foi péssimo para a colheita, enquanto me empurra o terceiro do mês. A tia de uma amiga recebe as visitas com um “chegaram tarde, a comida arrefeceu” e despacha cada uma de volta com três marmitas e a recomendação de não sumir porque tem “saudadinhas.” Quem vem do Brasil, onde até o desaforo chega embrulhado com abraço de urso, leva uns bons anos para entender que algumas patadas são lambidas à meia-boca.
Por trás do rosnado existe uma desconfiança antiga, a de que alguém, em alguma parte, se acha maior e melhor do que Portugal e seus filhos. A lista de suspeitos é longa e obedece a uma cronologia: o espanhol está sob vigilância desde 1580, quando os Filipes se sentaram no trono de Lisboa e só se levantaram 60 anos depois; o inglês caiu em desgraça com o Ultimato de 1890, que apagou do mapa o sonho de ligar Angola a Moçambique, e o francês nunca foi perdoado pelas invasões de Napoleão nem pelo hábito de achar a capital lusitana “charmante,” elogio que soa a cafuné em criança.
Nenhum suspeito, porém, faz ladrar tanto quanto o brasileiro, e aqui sou obrigado a dar razão a toda e qualquer Maria, seja ela humana, desumana ou canídea.
Desembarcamos convencidos de que somos o maioral, distribuímos beijinhos a quem não pediu e falamos no elevador com decibéis de arquibancada. Antes de desfazer a mala, já queremos levantar a pata em cada poste para demarcar nosso território: batucamos, chamamos o padeiro de “meu querido,” defumamos o jardim do vizinho com nosso churrasquinho e fazemos piada de português numa tasca em Belém, a dois passos do Padrão dos Descobrimentos. Realmente a gente é muito pouco engraçado…
Alfred Adler, o psiquiatra vienense que batizou o complexo de inferioridade, sustentava que quem se sente pequeno passa a vida compensando, e que a compensação costuma fazer barulho. Freud foi mais longe e, ao descrever o narcisismo das pequenas diferenças, a mania de implicar justamente com quem mais se parece com a gente, escolheu como exemplo espanhóis e portugueses, o que explica por que o patrício se irrita mais com o brasileiro do que com o sueco.
O remédio, nos dois diagnósticos, passa por aceitar as próprias medidas. A desimportância liberta: quem desiste de provar grandeza recupera o tempo que gastava vigiando a fronteira e descobre que o mundo segue girando sem pedir a sua opinião. Portugal, que já mandou em meio planeta e hoje se contenta em aparecer nos stories da outra metade, economizaria uma fortuna em divã.
Ontem à noite, voltando do passeio, encontramos a Maria de plantão ao pé da escada. O Feijão, que não tem nada a provar, passou por ela abanando o rabo e sem abrir a boca, enquanto ela esgoelava a indignação de toda uma linhagem. Subimos os dois em silêncio, e do patamar do primeiro andar ainda dava para ouvi-la, ofendida porque ninguém tinha se ofendido.















