Jô Soares, exibido assumido, gostava de palmas e gargalhadas. Sentia-se perdido no exterior quando não era reconhecido nas ruas.
Seu primeiro público foi a mãe, que, quando ele tinha apenas dois anos, já ria de suas gracinhas. Depois não parou mais, a tal ponto que passou a cobrar para fazer isso.
Deu certo. Por mais de meio século, ele lotou teatros e casas de espetáculos, vendeu livros e roteiros e fez dos estúdios da TV brasileira — a qual se integrou desde os primórdios — um anexo da sua casa e que, ao mesmo tempo, invadia a casa dos telespectadores.
Esse personagem espaçoso em todos os sentidos — 160 quilos em seu maior momento — engloba um talento ainda maior (comediante, ator, artista plástico, redator, roteirista, trompetista, entrevistador...) e que tem parte dessa multiplicidade de talentos recordada em Um Gênio Chamado Jô, série documental produzida pelo SBT para o serviço de streaming +SBT em exibição no Disney+.
Documentário dividido em cinco partes — todas curtas, a maior tem pouco mais de 40 minutos de duração — apresenta de forma didática a linha do tempo traçada por José Eugênio Soares, do nascimento no Rio de Janeiro em 1938, filho de um dos primeiros operadores da Bolsa de Valores, então com 36 anos, e de uma dona de casa quatro anos mais velha, até a morte em agosto de 2022, aos 84 anos, no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, de insuficiência renal e cardíaca.
Artista completo e dono de uma criatividade absoluta, Jô foi preparado para ser diplomata, com direito à formação em colégio interno, primeiro no Brasil e depois na Suíça.
Quando vinha ao país, ficava hospedado no edifício anexo ao Copacabana Palace, situação que se manteria até a adolescência, quando sua vida passaria por uma reviravolta.
Com a irregularidade dos negócios feitos pelo pai, a família perdeu tudo e Jô Soares foi morar com os pais em um apartamento emprestado na Prado Júnior, em Copacabana.
Isso tudo é mostrado em Um Gênio Chamado Jô, muitas vezes com o depoimento do próprio comediante, que recorda ainda ter sido descoberto por Silveira Sampaio, um dos pioneiros dos talk shows.

Foi Sampaio um dos primeiros a perceber que Jô teria mais a dar atuando como ator do que participando de infindáveis discussões promovidas pelo Itamaraty.
Nessa época, ele ainda era Zezinho, apelido familiar traduzido para Joe na Suíça e mais tarde simplificado por Tereza Austregésilo, a primeira de suas três mulheres, que achava o nome em inglês muito pedante.
Nesses primeiros passos, Jô fez teatro, participou de chanchadas, escreveu textos e entrevistou pessoas para Silveira Sampaio até começar a revolucionar o modo de fazer humor na TV.
Primeiro com a Família Trapo e logo adiante nos programas que esteve à frente na Rede Globo — Faça Humor Não Faça Guerra, Satiricom e Planeta dos Homens — Jô deu uma nova dimensão à arte de representar, e de criar personagens e bordões, alguns “bótimos”, ou “seja, melhor do que bom, melhor do que ótimo”, como ele ajudou a divulgar.
Com depoimentos de arquivo de contemporâneos como Nilton Travesso, Hebe Camargo e Boni (de quem Jô foi muito amigo e depois rompeu), de seu biógrafo, o jornalista Matinas Suzuki, e de Flávia Pedras Soares, sua terceira e última mulher — entre idas e vindas, “nossa separação foi um fracasso”, admitiu Jô — o documentário humaniza o personagem, mostrando a face menos conhecida dentre as tantas que ele inventou na vida.

As cenas recuperam os hilariantes esquetes de um artista que precisava usar de toda a sua inteligência para driblar a censura e mostram ainda como ele, sentindo-se esgotado com a fórmula, começou a pensar em um novo tipo de programa.
Sua ideia era fazer um programa de entrevistas, nos moldes daqueles que ele conhecia tão bem de suas temporadas nos Estados Unidos.
Boni não se animou, a Globo não abriu espaço na grade de programação e Jô espantou a todos ao negociar com Silvio Santos e se mudar para o SBT. Mais uma vez, ele estava certo.
Com o Jô Soares Onze e Meia, o apresentador mudou a forma de entrevistar: de humildes desconhecidos a presidentes da República, Jô abriu espaço a todos e tratava quem se sentava em seu sofá com bom humor e irreverência.
Criou mais do que um programa, criou um horário (quase sempre incerto, mas sempre tarde), e qualificou a audiência. Precisou também enfrentar brigas e disputas.
E o documentário também mostra isso ao recuperar um trecho de uma entrevista concedida à Marília Gabriela, na Band, em que ele expõe detalhes do rompimento com a Globo. O que não o impediu de anos depois ser recontratado e levar para a emissora o seu Programa do Jô.
One-man show, Jô sabia ser generoso ao dividir seu palco com seus convidados. Foi até o fim da vida um atento observador de tudo que estava ao seu redor e elevou a arte da conversa ao mais alto nível.
Poliglota, curioso e cosmopolita, dava a impressão de ser um gênio que sempre estava pensando em uma nova criação. Na verdade, como define Flávia, foi sempre uma criança. E conseguiu fazer de sua vida uma extensão daquilo que toda criança mais gosta de fazer: brincar.
















