Marco da cultura pop brasileira da década de 1990, a peça Confissões de Adolescente inaugurou uma grife que teve sequência com a publicação de um livro, a adaptação para uma série de tevê e uma releitura cinematográfica.
Trinta e quatro anos depois da estreia, o texto escrito por Maria Mariana inspira uma versão musical. Com direção-geral de Matheus Souza, a peça é protagonizada por Vanessa Gerbelli e Flor Gil, em sua estreia como atriz. A direção musical é de Diego Timbó, Felipe Bade e Victor Huggo.
No que depender da mítica em torno de Confissões de Adolescente, Flor, de 18 anos, neta do compositor Gilberto Gil, parece destinada a ter sorte.
Foi a montagem, lançada em 1992 no porão da Casa de Cultura Laura Alvim, no Rio, que impulsionou as novatas Carol Machado, Ingrid Guimarães, Maria Mariana e Patrícia Perrone há 34 anos.
Sob o comando de Domingos Oliveira (1936-2019), pai de Mariana, o quarteto subiu ao palco sem a menor pretensão.
O diretor descobriu o diário da filha e cometeu a mais perdoável das indiscrições. Lendo o conteúdo, enxergou um farto material para teatro — e viu que não precisaria criar quase nada em cima do original.
Bastou um mês de ensaios, quatro figurinos comprados em uma loja de Ipanema, uma parede grafitada como cenário para a peça despontar como fenômeno.
Em cena, Carol, Ingrid, Mariana e Patrícia falavam sem rodeios de sexo, morte, aborto e drogas. Meninas e até meninos se enxergaram representados.

“A visão do jovem no teatro sempre foi racionalizada, e Confissões de Adolescente comunicava com o coração,” diz Mariana. “Ali, talvez fosse a primeira vez que quatro meninas se apresentavam diante de uma plateia sem o filtro de um dramaturgo e diretor adulto.”
Os tempos mudaram, o jovem de hoje é outro e, naquela época, não existia nem internet e tampouco redes sociais.
Mariana, aos 53 anos, sabia que para trazer Confissões de Adolescente de volta precisaria de um argumento forte e, de novo, buscou na sua experiência a renovação.
Ela é mãe de quatro filhos, uma escadinha entre 19 e 26 anos, e, mesmo que todos estejam crescidos, a atriz e roteirista se inspirou nas vivências como mãe.
“Eu vivi no papel de mãe a adolescência de todos e não encontrei eco,” afirma. “Eu me pegava falando ‘no meu tempo era diferente’ e, como realmente era, me senti perdida muitas vezes.”
Carol (interpretada por Flor) é a garota em constantes embates com a mãe, Mariana (papel de Vanessa), uma mulher separada, que trabalhou muito e lamenta a falta de conexão com a menina.
Quando descobre o diário da mãe, escrito há mais de 30 anos, Carol embarca em um túnel do tempo, conhece a Mariana adolescente (representada por Belle Cárceres) e fica chocada com o contraste.
“Carol vê a sua futura mãe festeira, cheia de amigos e paqueras, descolada, muito diferente até dela mesma,” explica Matheus Souza, que além de dirigir, desenvolveu o texto e assina as letras das canções.
O elenco é formado ainda por Gi Alparone, Belle Restum, Laura de Oliveira, Clara Guimarães, Sanny Feijó e Igor Jansen, que se reveza em todos os personagens masculinos.
A montagem apresenta uma simbólica troca de bastão através de Laura, de 24 anos, e Clara, de 17 anos, filhas respectivamente de Maria Mariana e de Ingrid Guimarães.

“Confissões cumpre mais uma vez a missão de aproximar pais e filhos, fortalecendo um diálogo familiar,” aponta Mariana. “Foi assim com meu pai, ao longo destas três décadas conversei com muitas meninas e mães e, agora, uma das minhas filhas estará lá.”
Ingrid, de 54 anos, não esconde a emoção de ver Clara repetindo os seus passos — ainda mais em Confissões de Adolescente.
Meio mãe babona, colega experiente e conselheira sempre atenta, ela repete para o elenco o conselho que ouviu de Domingos em 1992 — “façam das suas histórias o seu mundo” — e torce para que cada um encontre um caminho de acordo com as suas personalidades.
“Na época, falamos com sinceridade de coisas que todo mundo diz abertamente nas redes sociais,” compara Ingrid. “Por isso, hoje o grande desafio é tirar o jovem do celular e levá-lo de volta ao teatro.”
Matheus Souza, de 38 anos, é um dramaturgo e diretor apaixonado pelo universo jovem. Aos 19, ele dirigiu o longa Apenas o Fim, uma comédia romântica protagonizada por Gregorio Duvivier e Érika Mader, e chamou a atenção de Domingos Oliveira, de quem se tornou uma espécie de pupilo.
Foi ele quem assinou uma nova encenação de Confissões de Adolescente em 2009, protagonizada por Sophie Charlotte, Bella Camero, Clarice Falcão e Louise D’Tuani, e, em seguida, roteirizou Confissões de Adolescente para o cinema no filme realizado por Daniel Filho.
“O jovem está abandonado no teatro e no audiovisual brasileiro e, desde o fim da novela Malhação, da Rede Globo, só restou a eles a rede social,” afirma Souza. “Talvez por isso estamos diante de uma geração tão cheia de paradoxos, afinal eles têm muitas questões e poucas respostas.”
Em cartaz no EcoVilla Ri Happy, Sala Tom Jobim, no Rio de Janeiro.















