A beleza espetacular da ave Galo-da-Serra na Amazônia captada em toda sua intensidade, o Cristo Redentor registrado perfeitamente no centro de uma lua cheia e a imponente geometria do relevo carioca fotografada em camadas sob a luz do sol.
As três imagens que se destacam no trabalho do fotógrafo em ascensão Bruno Boni guardam em comum um trabalho meticuloso, que muitas vezes envolve meses de pesquisa, preparo e espera, até encontrar o equilíbrio perfeito entre o espaço, o enquadramento e a luz.
O trabalho de Bruno, caracterizado por uma busca incessante pela essencialidade e pelo domínio absoluto do contexto, tem atraído a atenção de colecionadores pelo Brasil.
“Eu não quero que meu trabalho seja visto como um mero objeto decorativo. Cada imagem carrega uma jornada, um desafio autoimposto e uma entrega profunda de tempo e energia. Quero que ela ocupe um lugar privilegiado no lar de quem a acolhe,” explica o fotógrafo carioca ao Page9.
Essa entrega de tempo e energia pode ser exemplificada pela foto do Cristo Redentor citada acima. Até captá-la, foram sete tentativas acordando às 4h da manhã, carregando um equipamento de 15 quilos nas costas e buscando nas cidades vizinhas do Rio e de Niterói o momento exato em que o icônico monumento seria emoldurado pela lua cheia.

Com a ajuda de um aplicativo, Bruno passou horas calculando quando ocorreria o alinhamento perfeito. Trigonometria e modelos de previsão meteorológica também fazem parte dessa jornada.
Bruno compara o momento em que a foto finalmente dá certo a um gol em final de Copa do Mundo. “Emocionalmente é muito forte. Uma sensação física mesmo, o corpo vai formigando da ponta do dedão do pé até chegar à cabeça. E dá vontade de gritar quando você chega ao resultado buscado.”
Curiosamente, Bruno se dedica integralmente ao trabalho como fotógrafo há apenas dois anos. Graduado em Economia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), com mestrado em Sustainability Management pela Universidade Columbia (EUA), ele teve antes uma carreira bem-sucedida no mercado financeiro, foi sócio da consultoria Eleven Financial, vendida em 2021 ao banco Modalmais.
O trabalho do artista visual volta-se para os temas da natureza, paisagens, fenômenos astronômicos e fauna, assim como para as relações entre o ambiente natural e a cidade.
Mas a vocação artística está longe de ser tardia. Bruno já na infância fazia seus primeiros registros da natureza na Estação Ecológica dos Tamoios, em Angra dos Reis (RJ), onde passava os fins de semana com a família.
“Enquanto meus amiguinhos estavam em festas, eu estava ali dentro da Mata Atlântica, me apaixonando pelas aves que iam até a janela de casa. No início, eu queria só registrar aqueles momentos; não importava se tinha um galho na frente, se a luz estava errada. O senso estético desenvolveu-se muito depois. Primeiro saí fazendo, depois refinei.”
A conexão com as câmeras também está no DNA. Bruno cresceu em uma casa em que a imagem era o ofício. É filho do lendário diretor artístico da TV Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni.
O fotógrafo recorda que o pai também se aventurava em busca de uma boa imagem: “Lembro dele deitado no chão no meio das flores no verão dos Alpes franceses só para pegar o melhor ângulo para a foto da família em férias. E minha mãe pedindo para ele se levantar”.
Além de Boni, ele é irmão do diretor de televisão José Bonifácio Brasil de Oliveira, o Boninho, responsável por consolidar como sucesso o reality show Big Brother no Brasil. “Claro que meu pai me influenciou, engraçado que não diretamente, mas mais pelos papos que ouvia sobre o rigor na construção do famoso padrão Globo de qualidade,” conta.

A busca pela maturidade visual o levou a estudar referências nacionais das lentes, como Custodio Coimbra, João Quental, Marcos Amend e Sebastião Salgado. A inspiração também vem de grandes mestres internacionais, como o norte-americano Ansel Adams, um dos responsáveis por elevar a fotografia de natureza à categoria de arte e levá-la aos principais museus do mundo.
“A ideia do gênio francês Henri Cartier-Bresson de captar o instante decisivo também é algo que sempre tenho em mente, buscando uma imagem que não nasça da sobrecarga de elementos, mas de um exercício contínuo de simplificação. A composição de uma foto passa muito mais pelo que eu não quero que esteja nela do que pelo que eu quero," pontua.
Com a consolidação de seu trabalho no mercado de arte, Bruno optou por um modelo de distribuição personalizado. Em seu site, não há vendas automatizadas; cada aquisição é feita de forma consultiva, estabelecendo uma conversa direta entre o artista e o futuro detentor do quadro. “Eu fiz uma escolha consciente de só trabalhar com edições limitadas,” conta.

Sua próxima aventura fotográfica? “Tem uma foto que quero fazer entre o final deste ano e o início de 2027, na temporada de tempestades de verão, que em anos de El Niño tende a ser mais intensa e produzir raios na região Sudeste. Quero registrar um raio caindo na mão do Cristo Redentor. Alguns fotógrafos já fizeram, mas eu tenho um ângulo diferente. É uma imagem muito simbólica da força da natureza.”
Quem segue Bruno no Instagram pode acompanhar essa jornada. É lá que ele costuma postar os bastidores da produção das fotos e suas aventuras na natureza do Rio, com sucesso de público — o vídeo de um elefante-marinho-do-sul que apareceu na Praia de São Conrado, por exemplo, ultrapassou 27 milhões de visualizações. Sobre o efeito viral, ele conta: “Foi natural, fui experimentando formatos e me dei conta que as pessoas adoram. Meus conteúdos de maior sucesso são bastidores. Entender como cada imagem é feita, as dificuldades, valoriza a obra.”















