O maior e o mais rico Emirado entre os sete Emirados Árabes, Abu Dhabi segue investindo para conquistar a fama de capital cultural.
Dinheiro não é problema.
Além de ser o centro político do país — é lá que ficam o governo federal e o palácio presidencial —, Abu Dhabi é dona de cerca de 90% da reserva de petróleo dos Emirados.
Depois de gastar mais de US$ 1,3 bilhão por um Louvre, o Departamento de Cultura e Turismo de Abu Dhabi se uniu à Fundação Guggenheim para criar um templo dedicado à arte moderna e contemporânea.
Faz 20 anos que o projeto do Guggenheim Abu Dhabi foi anunciado e, depois de um gasto estimado em US$ 1 bilhão e algumas controvérsias, o novo templo da arte finalmente tem data para ser inaugurado: 11 de dezembro de 2026.

O museu, com projeto de Frank Gehry (1929-2925), fará parte de um conjunto de instituições culturais na Ilha de Saadiyat, uma área de quase 27 km², quase o dobro do Parque Ibirapuera. Também fazem parte do complexo o Louvre Abu Dhabi, projetado por Jean Nouvel; o Zayed National Museum, projetado pela Foster + Partners; a Abrahamic Family House, projetada por David Adjaye; e o Dar al Funoon Abu Dhabi, um centro de artes cênicas ainda em construção.
Assim como o modelo de licenciamento negociado com o Louvre, o museu entra apenas com a marca e o know-how curatorial, e ainda recebe uma taxa pelo uso do nome Guggenheim.
Para a criação do espaço, o arquiteto propôs um conjunto de cones, de malha de aço inoxidável, vidro e ônix, inspirados nas torres de vento tradicionais do Golfo Pérsico. O design não é só estético: funciona como sistema de ventilação natural no clima desértico.
A estrutura de 11.600 m² reúne 30 galerias ao redor de um átrio central. O arquiteto também assinou o projeto do Guggenheim Bilbao, em 1997, tão bem-sucedido que se tornou sinônimo de revitalização urbana e transformou a cidade espanhola em polo turístico — e que inspira diretamente o projeto de Abu Dhabi.

Os atrasos para a sua abertura são resultado de mudanças contratuais, boicotes de mais de 130 artistas internacionais contra as condições dos trabalhadores migrantes, a pandemia de 2020 e tensões geopolíticas na região. A pressão dos boicotes levou Gehry a contratar um advogado de direitos humanos para monitorar as condições no local.
Acontece que o impacto da mudança neste cronograma pode ter um custo alto. Para Marcello Dantas, curador de arte que acompanha o projeto desde o início e estará na inauguração em dezembro, o projeto é uma das coisas mais importantes a acontecer no Oriente Médio, mas com um timing que não o favorece.
Ao longo de 20 anos, o Catar saiu na frente e, após a Copa do Mundo 2022 e investimentos massivos em arte contemporânea, a exemplo do Museu Nacional do Catar projetado por Jean Nouvel, inaugurado em 2019, se tornou uma potência cultural no Oriente Médio, reduzindo o impacto do Guggenheim Abu Dhabi como novidade.
“O momento histórico não é o melhor. Com a guerra na região e a mudança da hegemonia americana no mundo, a importância cultural do projeto mudou. A ascensão do Catar como a potência cultural que virou, ofuscou tudo isso,” disse Marcello Dantas ao Page9.
Ainda não há detalhes sobre a programação do novo centro cultural, mas sabe-se que a coleção vem sendo formada desde 2009 e dará espaço para diferentes estilos de arte, como pintura, escultura, cinema e digital.

Também compõem a Fundação Guggenheim — criada por Solomon R. Guggenheim em 1937 — o icônico prédio espiralado de Nova York, assinado por Frank Lloyd Wright (1867–1959), e o de Veneza, instalado em um palazzo do século XVIII. Este último reúne a coleção particular de Peggy Guggenheim, sobrinha de Solomon.
Relevância cultural, afinal, pode ser comprada? Só o tempo irá dizer.













