Arquivo Page9: o homem do carro amarelo

Arquivo Page9: o homem do carro amarelo

Em uma São Paulo onde todo mundo quer parecer importante, João Lara Nunes encontrou um jeito de ser inesquecível

Há coisas em São Paulo que não foram feitas para serem explicadas. E, cá entre nós, nem vale a pena tentar.

A cidade cobra caro, buzina atrás, manda você esperar quarenta minutos pelo valet e ainda faz parecer que o problema é seu. São Paulo não pede desculpas. Manda a conta. E é nesse hospício de concreto, entre uma reunião na Faria Lima, um almoço no Jardins e alguém jurando que “sem trânsito dá quinze minutos”, que aparece um carro amarelo.

Mas amarelo mesmo. Um amarelo sem nenhuma vocação para a discrição.

Dentro dele está João Lara Nunes, o mítico Homem do Carro Amarelo, personagem que São Paulo parece ter inventado porque o Minhocão, a Marginal parada e restaurante onde é preciso implorar por mesa já não davam conta do folclore.

João recebeu uma herança da avó e, qualquer paulistano razoavelmente ajuizado, teria procurado um private banker. Aplicaria o dinheiro, compraria alguns metros quadrados no Itaim pelo preço de uma ilha grega ou faria terapia três vezes por semana para descobrir por que trabalha tanto para jantar olhando o celular.

João fez melhor. Comprou um Farus amarelo – e é aí que a história fica boa.

Porque aplicar herança é prudência. Comprar imóvel é patrimônio. Mas transformar o dinheiro da avó num Farus amarelo é literatura brasileira.

Desde então, João percorre São Paulo praticando aquilo que esta cidade condena em público e deseja em segredo: ser visto.

Imagine a Paulista. Sinal fechado. Motoboy buzinando. Ônibus. Executivo falando sozinho com fone no ouvido. Uma mulher procurando o Uber. Um sujeito saindo da academia com um copo verde na mão, aparentemente contendo proteína, felicidade e perdão pelos pecados.

De repente, aparece o Farus.

Amarelo como um canário que ganhou dinheiro na Bolsa.

O executivo esquece o KPI. A mulher esquece o Uber. O sujeito interrompe o frango com batata-doce.

Até o motorista do Porsche Cayenne olha.

Em São Paulo, fazer o dono de um Porsche olhar para outro carro já é praticamente uma condecoração municipal.

João passa devagar. Claro que passa devagar. Só tem pressa quem não está sendo observado.

Dá para imaginá-lo descendo a Alameda Santos, entrando na Augusta, atravessando os Jardins, aparecendo na Oscar Freire e desembarcando na Faria Lima como chefe de Estado de um país que não existe.

O Farus parece uma mistura de delírio do Detran, pop art e concessionária brasileira dos anos 80.

E ainda existem as pequenas regalias urbanas. João estaciona onde pessoas normais pensariam duas vezes. Na porta do restaurante, com o pisca-alerta ligado e a serenidade de quem considera o Código de Trânsito uma obra aberta à interpretação? Evidente.

Imagino a CET olhando para aquele amarelo e pensando:

“Melhor não mexer. Vai que é tombado.”

São Paulo aceita essas coisas porque, apesar de toda a pose, é uma cidade sentimental diante de quem tem personalidade. Aqui todo mundo quer parecer importante. Um quer mesa sem reserva. Outro quer que o maître saiba seu nome. Tem sujeito que estaciona a Ferrari na porta e entra olhando para trás só para conferir se alguém percebeu.

João resolveu a questão sem tanta burocracia. Comprou um carro impossível de ignorar. E há uma diferença enorme entre ser importante e ser inesquecível.

Quando o Farus estaciona, acontece uma pequena cena paulistana. As pessoas olham para o carro, depois para João e depois para o carro outra vez, tentando descobrir qual dos dois é mais improvável.

Nunca chegam a uma conclusão.

João Lara Nunes não é apenas o Homem do Carro Amarelo. É uma pequena vingança contra essa São Paulo sem cor, bege, cinza, apressada, corporativa e discretamente convencida de que bom gosto precisa ser italiano, minimalista e caríssimo.

João não pede licença estética. Não combina com o prédio, com o restaurante, com o condomínio nem com o sujeito de camiseta preta falando sobre valuation na mesa ao lado.

Por isso mesmo combina perfeitamente com São Paulo. 

Ele passa. Amarelo, reluzente, gasolina no tanque e a herança da avó devidamente transformada em assunto.

Talvez a elegância seja um pouco isso: ter coragem de gastar parte da vida com coisas que não precisam fazer o menor sentido.

São Paulo já tem gente demais tentando ser séria. Gente correndo para a reunião, falando de valuation no almoço e de longevidade enquanto pede a terceira taça de vinho. De vez em quando, a cidade precisa de um sujeito num Farus amarelo para lembrar que viver também pode ser uma deliciosa irresponsabilidade.

Dinheiro aplicado rende juros. Mas uma herança gasta num Farus amarelo?

Isso rende uma coisa que nenhum banco oferece: história para contar.

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