Luz, câmera… compulsão!

Luz, câmera… compulsão!

Nosso fascínio por personagens viciados revela tanto nossa curiosidade pelo abismo quanto a esperança de que exista uma saída

Já reparou como ficamos completamente hipnotizados diante da tela quando um personagem começa a derrapar? Seja acompanhando a clássica espiral do álcool de Heleninha Roitman em Vale Tudo e de Orestes em Por Amor, o envolvimento obsessivo de Heloísa pelo marido em Mulheres Apaixonadas, ou a queda dolorosa de Mel em O Clone, existe algo nesse abismo que não nos deixa piscar o olho. 

O ser humano tem uma relação antiga com a busca por sensações, escapismos e aliviar dores — sejam elas do corpo ou da mente. Mas o que torna essa busca, quando vira compulsão na dramaturgia, algo tão fascinante para quem assiste?

A resposta para esse nó está em como a arte consegue traduzir os mecanismos mais complexos da nossa psique e do nosso cérebro de uma forma próxima, leve e, acima de tudo, profundamente humana. 

Para entender por que o vício na ficção é um prato cheio para a audiência, conversamos com as autoras do livro Luz, Câmera... Compulsão — a psiquiatra Analice Gigliotti e as psicólogas Elizabeth Carneiro e Sabrina Presman —, que usaram cenas marcantes do audiovisual para explicar os bastidores das dependências humanas.

A verdade é que ninguém quer assistir a uma história sobre pessoas perfeitas que só tomam decisões certas. Uma boa trama precisa de ruído, de contradição, de vulnerabilidade. Quando a ficção coloca o vício no centro do palco, ela joga luz em sentimentos que todo mundo conhece bem, mesmo que em escalas totalmente diferentes.

A psicóloga Sabrina Presman explica que a dependência coloca em cena dilemas bem humanos. “Desejo, culpa, prazer, perda de controle, medo, relações familiares, tentativas de esconder o problema e promessas de que ‘desta vez vai ser diferente’. E muitas dessas situações não pertencem apenas à ficção. Fazem parte da vida real. Só que, na vida real, esses assuntos muitas vezes ficam velados, escondidos. Há vergonha e negação.”

Quando vemos isso escancarado numa novela ou série, a mágica da identificação acontece. “Personagens são como espelhos: às vezes uma história ajuda a gente a enxergar a nossa,” diz Sabrina. “A pessoa pode nunca ter tido uma dependência de álcool, de drogas ou de jogo e, ainda assim, reconhecer ali alguma coisa muito familiar. Pode ser a dificuldade de resistir a um impulso, a promessa de ‘só mais uma vez’, a culpa depois ou a sensação de estar perdendo o controle. Então, muitas vezes, a identificação é com aquilo que existe por trás: desejo, vergonha, medo, autoengano.”

E existe também o outro lado da moeda: a segurança do contraste. Assistir ao descontrole de alguém na TV nos dá o alívio de estar em um lugar seguro, observando os limites que nós mesmos não ultrapassamos. Mas, ao mesmo tempo que vemos a queda, torcemos pela recuperação do personagem — porque a gente precisa manter a esperança de que a história ainda pode mudar.

Geralmente, o relacionamento com qualquer substância ou comportamento compulsivo não começa na tragédia; começa na chamada "fase de lua de mel". 

Em produções que vão da elegância clássica do cigarro em Casablanca ao frenesi da cocaína e da ambição em Succession, o espectador é tragado por esse roteiro que vai do céu ao inferno. “No começo, aquilo pode aparecer como algo positivo: prazer, glamour, estilo de vida, pertencimento, desempenho, uma escolha,” diz Sabrina Presman. 

“O que começa como ‘eu gosto de fazer’ ou ‘eu faço por prazer’ pode, aos poucos, virar ‘eu não consigo não fazer’. E aí muda tudo. Aquilo que parecia liberdade começa a limitar a liberdade da pessoa. A decadência não chama atenção só pela tragédia. Ela mostra justamente esse processo de perda de controle. Algo que começou oferecendo alguma coisa que a pessoa quer, acaba tirando justamente o que parecia oferecer: autonomia, prazer e liberdade.”

Se por um lado a decadência choca, por outro, o uso de substâncias como álcool e maconha costuma ser tratado com muita graça em comédias e produções como Os Normais. 

Por que a gente tende a rir do consumo nocivo antes de levar a sério a gravidade do problema? Sabrina alerta que o álcool e a maconha são amplamente normalizados na nossa cultura. “Beber demais, perder a medida, fazer alguma coisa constrangedora e depois contar aquilo como uma história engraçada acabou fazendo parte do nosso repertório social. E o humor, às vezes, funciona como uma espécie de máscara. Ele ajuda a transformar em piada aquilo que, se fosse olhado com mais cuidado, poderia revelar sofrimento e perda de controle. Enquanto está no campo do engraçado, fica mais fácil não enxergar a gravidade do que está acontecendo.”

É aqui que a arte cumpre um papel fundamental de utilidade pública: ela consegue destruir a ideia simplista de que a dependência é apenas "falta de caráter" ou "falta de força de vontade". Vemos isso nitidamente quando acompanhamos a trajetória trágica de Larissa em Verdades Secretas ou a luta desesperada da médica Amanda em Onde Está Meu Coração, ambas tragadas pelo vício devastador no crack.

“Ajuda muito quando a interpretação consegue mostrar que ali existe uma pessoa, e não só uma doença. Quando acompanhamos aquele personagem por algum tempo, vemos a culpa, as tentativas de parar, as recaídas, os momentos em que ele quer mudar e os que não consegue. De fora, é muito fácil resumir tudo a uma escolha: ‘se quisesse mesmo, parava’. Quando acompanhamos por dentro, percebemos que é muito mais complexo. A ficção nos faz compreender antes de julgar,” diz a psicóloga Elizabeth Carneiro.

Não são apenas as drogas químicas que nos fisgam. Hoje, os chamados vícios comportamentais — como apostas virtuais (bets), o descontrole nas mesas de pôquer exposto por Silvana em A Força do Querer, compras descontroladas e a dependência de telas e redes sociais — dominam a rotina. 

A psiquiatra Analice Gigliotti lembra que esses hábitos não chegam com cara de vilão. “Elas chegam com cara de entretenimento, conveniência, recompensa, conexão, consumo. Estão misturadas à vida cotidiana. A gente vive cercado de estímulos para comprar, clicar, apostar, conferir. E essas experiências são construídas para manter a atenção e gerar expectativa. O perigo está justamente aí: não é fácil perceber que existe um problema quando todo o entorno continua dizendo que aquilo é normal.”

E quando a ficção resolve adaptar tragédias reais e overdoses de ícones da música e do cinema? A atração do público é quase obsessiva. 

Para Analice, isso se deve ao choque de realidade e à quebra de ilusão. “Quando acontece uma tragédia com um ídolo, ela não acontece com alguém distante; para o fã, acontece com alguém que já fazia parte da vida dele. Fica a necessidade de reescrever a história, de procurar os sinais. E tem também um choque muito grande quando alguém que parecia ter tudo — sucesso, dinheiro, reconhecimento — termina numa situação de enorme sofrimento. Isso quebra a fantasia de que determinadas conquistas nos protegeriam da vulnerabilidade. A tela vai retirando as camadas do mito e devolvendo a pessoa.”

No fim das contas, a busca dos personagens por um recomeço atende a um desejo profundamente nosso: o de acreditar que ninguém está condenado a ficar preso para sempre ao seu pior momento. 

“A gente precisa acreditar que uma história pode mudar,” diz Elizabeth Carneiro. “Redenção não é apagar o que aconteceu nem fingir que não houve consequências. É a possibilidade de fazer alguma coisa diferente a partir dali. Na vida real, às vezes é muito difícil sustentar essa esperança. Talvez por isso seja tão potente ver alguém encontrar uma saída na tela.”

E será que até o nosso hábito de maratonar séries sem parar — o famoso binge-watching — também não é uma leve fuga da realidade em busca de dopamina rápida? Analice Gigliotti pondera sobre o paralelismo neurológico entre assistir a um suspense e o circuito de recompensa. “Existe algum paralelo nos mecanismos de expectativa, motivação e recompensa no ‘quero mais’, mas a dependência química é de uma complexidade muito maior.”

Elizabeth Carneiro complementa com o alerta para a nossa própria rotina com as telas. “Às vezes a pessoa assiste a vários episódios porque quer descansar, e isso é normal. A questão muda quando aparece a perda de controle e traz prejuízo para o sono, o trabalho e as relações. A pergunta que fica, para as séries ou para qualquer outro hábito da vida, é simples: aquilo ainda está a serviço da minha vida ou a minha vida começou a se organizar em torno daquilo?”

Ao olhar para os nossos personagens favoritos lidando com suas próprias compulsões, a televisão acaba fazendo muito mais do que nos entreter: ela nos dá a oportunidade de olhar para as nossas próprias fraquezas com um pouco mais de empatia, leveza e compreensão.

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