O samba classudo, atual e autoral de Teresa Cristina
Foto: Nana Moraes

O samba classudo, atual e autoral de Teresa Cristina

“Tudo que Eu Tenho”, primeiro disco inteiramente autoral em 28 anos de carreira, é uma obra de respeito de uma artista de alta patente

Semanas atrás, o jornalista Ancelmo Góis publicou em sua coluna uma nota sobre o processo de deterioração do CCC (Centro de Cultura Carioca). Um dos totens da revitalização do samba — e, por que não dizer, da Lapa, bairro da região central do Rio de Janeiro —, no início dos anos 2000, o local está agonizando enquanto o Real Gabinete de Cultura, que arrematou o imóvel por dois milhões de reais, aguarda uma regularização jurídica para realizar as reformas necessárias.

O Centro de Cultura foi abordado na conversa realizada com a cantora Teresa Cristina dias antes de Ancelmo publicar a devastadora informação. Ela era uma das artistas da casa ao lado de grupos como Casuarina e Sururu na Roda, entre outros, que fizeram com que a juventude daquele período se encantasse com o chamado “samba de raiz”.

“Era o único lugar onde eu ia além do horário. E se pudesse ficava mais um tempo porque era uma liberdade tão grande que a gente tinha para mostrar músicas…,” diz Teresa, ao Page9. “Meu acordo era cantar das 20h às 22h, mas eu podia chegar até às 2h da manhã,” completa.

Teresa está lançando Tudo que Eu Tenho, primeiro trabalho constituído de material autoral em 28 anos de carreira. “As canções foram feitas tempos atrás, fiquei com medo delas estarem desatualizadas, sabe? Hoje penso que elas entraram na hora certa.” A cantora diz que o repertório do disco é “consequência de uma amizade”.

E que amigos Teresa tem… Pretinho da Serrinha assina a produção do trabalho, que traz parcerias dela com Xande de Pilares e Mosquito (a ótima Quando a Onda Passar), Marisa Monte (Pode Acontecer), Moacyr Luz (Yabá) e Cézar Mendes (Notícia Boa), além de composições da própria pena de Teresa. 

“A Marisa me incentiva a compor desde que eu comecei a cantar. Eu falava: ‘Poxa, vamos fazer uma música juntos.’ Ela dizia que ia me dar uma melodia e fiquei esperando,” diz Teresa, que depois explica sobre as outras parcerias. “Notícia Boa nasceu de trás para frente, Cézar Mendes me deu a melodia do refrão e depois fui criando o resto dela. Já na parceria com o Xande e o Mosquito, cada um escreveu um verso. Tudo nesse disco nasceu em decorrência da amizade e isso transparece na música,” diz a cantora.

No universo do cancioneiro nacional, Teresa Cristina seria o que se pode chamar de restauradora. Explicando melhor: ela transmite a sabedoria dos sambas de todas as eras para uma plateia jovem e atenta. O curioso é que nem sempre foi assim. Teresa era uma ávida consumidora de heavy metal — em especial, a pauleira do sexteto inglês Iron Maiden — até que, certa feita, um amigo lhe emprestou um disco do sambista Candeia.

O “clique” que veio logo após a audição do LP fez com que ela passasse a estudar com mais afinco as diversas variações do batuque, seguidas por apresentações em bares da boemia carioca como o Semente e o já citado CCC.

“Quando eu descobria música nova do Manacéa e do Chico Santana (nota do redator: integrantes da tradicional Velha Guarda da Portela) era uma felicidade…,” emociona-se. E assim foi com autores consagrados como Zé da Zilda, Janet de Almeida e Wilson Batista, trazidos muitas vezes pela cantora e pesquisadora Cristina Buarque. 

O despertar de Teresa para o grande público se deu quando ela participou da apresentação de outros dois lendários integrantes da Velha Guarda — Jair do Cavaquinho e Argemiro Patrocínio —, num espetáculo que trazia também Marisa Monte. Embora tivesse um material autoral desde aqueles tempos, sua estreia se deu num tributo a Paulinho da Viola, outro portelense.

Foto: Nana Moraes

Os discos posteriores traziam uma ou outra música da cantora, mas o ponto nevrálgico do repertório eram as releituras. “Ficava sempre esse gostinho de meu Deus, eu preciso mostrar as minhas músicas, preciso mostrar as minhas músicas,” diz ela que, apesar de sentir falta de mostrar suas criações, prestou tributos lindos a Cartola, Zé Keti e até Roberto Carlos.

Em 2020, durante a pandemia, Teresa Cristina criou lives que serviam como um alívio para aqueles tempos difíceis. Era uma combinação de bate-papo com números musicais que traziam desde veteranos como Zeca Pagodinho a bandas cheirando a Leite Ninho como o quarteto Bala Desejo. Teresa, contudo, tem uma visão meio desoladora do resultado atual.

“Estamos mais para o Exterminador do Futuro do que para a Revolução dos Bichos, né?,” comenta, citando a ficção que traz uma visão desoladora do futuro e o clássico do autor inglês George Orwell. “Todo dia eu acordava e a primeira coisa que eu fazia era entrar no Twitter para ver se já tinham descoberto uma vacina. Hoje eu acordo esperançosa por boas notícias e vejo a minha alegria indo embora aos poucos,” entristece. 

“Na pandemia eu passava o dia fazendo pesquisa e, quando chegava de noite, estava ali, eufórica, bêbada, cantando com um desconhecido. A pandemia acabou e voltamos a essa situação,” prossegue. “Quem poderia imaginar que, em 2026, a gente estaria sofrendo com surto de sarampo? Sou do tempo em que a gente tomava vacina no colégio, era uma pistola grande,” diz.

A música, no entanto, continua a lhe dar alegrias. Tudo que Eu Tenho é um disco de samba que, embora ressalte o tradicionalismo — não chega a ralar nas modernidades que tomaram de assalto o gênero nos anos 1990 — tem uma sonoridade classuda e atual.

Uma obra de respeito de uma artista de alta patente, que nunca fez concessões ou desistiu da verdade do seu canto.

“São 28 anos de carreira. Sem patrocínio, sem caderneta de poupança ou sugar daddy, sabe? Nunca duvide do meu manual de sobrevivência,” encerra, com a sapiência de quem, como poucos, traduziu a nobreza do grande cancioneiro brasileiro para as grandes plateias.

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