O Japão cheio de som e fúria de Ryu Murakami

O Japão cheio de som e fúria de Ryu Murakami

Narrativas em estilo pop do escritor que nos deixou revelam um País que surgiu a partir da devastação pela guerra

Cercado pelo mesmo mistério que envolvia muitas de suas obras, o escritor japonês Ryu Murakami partiu. 

Ele morreu no último sábado, 17, aos 74 anos, mas seu falecimento só veio a público seis dias depois, através de um comunicado divulgado pela editora Gentosha, responsável pela publicação de suas obras no Japão. Da mesma forma misteriosa, a causa de sua morte tampouco foi divulgada e seu funeral foi restrito à família. 

Murakami – assim como Haruki Murakami, outro grande nome da literatura japonesa constantemente lembrado como candidato ao Prêmio Nobel e com quem Ryu não tinha nenhum parentesco – se destacava por ser um autor que se debruçava sobre temas da contracultura nipônica, com destaque para a violência e para a situação do Japão que emergiu no período pós-guerra. 

Porém, os livros de Ryu são “mais ousados ​​e raivosos,” escreveu o jornalista britânico David Pilling em 2013. “Se Haruki é os Beatles da literatura japonesa, Ryu é os Rolling Stones,” comparou.

Nesse sentido, então, Ryu tinha uma filiação literária maior com outro autor, Yukio Mishima. Quase três décadas mais velho do que Ryu (que nasceu em fevereiro de 1952), Mishima foi atingido de frente pelo impacto da Segunda Guerra Mundial, o conflito que devastou seu país. Ryu conheceu esse trauma por tabela.

Filho de um casal de professores e nascido na província de Nagasaki, epicentro do segundo ataque nuclear perpetrado pelos Estados Unidos contra o Japão, Murakami foi buscar em outros caminhos a resposta para o entendimento do que havia acontecido com seu país.

Jovem de índole pacifista que se deixou envolver pelo sonho hippie e protestou contra a guerra do Vietnã, Murakami começou a escrever seu primeiro livro – Azul Quase Transparente – quando tinha 20 anos de idade. A obra foi concluída e publicada em 1976, quando o autor tinha 24 anos e ainda era estudante na Universidade de Arte de Musashino. 

A história, com fortes elementos autobiográficos, mistura sexo, drogas e rock’n’roll e tem como cenário uma cidade portuária vizinha a uma base militar americana. A abordagem criativa e a conexão imediata com o drama de muitos dos contemporâneos do autor deram ao livro um reconhecimento instantâneo. 

A obra foi agraciada com o Akutagawa, o mais importante prêmio literário do País para novos autores, e vendeu cerca de 3,5 milhões de exemplares. 

O leitor brasileiro foi saber quem era Ryu dez anos depois, em 1986, quando o livro foi aqui publicado pela Brasiliense. Uma nova edição, pela DarkSide Books, mais elaborada e com capa dura, saiu por aqui há três anos.

Alguns temas tão presentes na obra de Mishima se repetem com Ryu, como a obsessão pelo sexo e pela violência. Só que ao contrário de Mishima, que valorizava uma prosa que obedecia aos rigores da literatura formal e ansiava por um retorno ao Japão feudal, Ryu radicalizava ao optar por um estilo mais pop, nervoso e pós-moderno. 

A essência era quase a mesma e, em ambos os casos, há uma crítica à ocidentalização em excesso pela qual o país passou. O Japão estava perdendo sua identidade. Se Mishima relatava a destruição, Ryu narrava o que percebia a partir dos escombros.

A boa aceitação desse seu primeiro livro fez de Ryu Murakami uma figura pop não apenas em seu país como também no exterior. Sua atividade também transcendia os limites da literatura. 

Audição, outro livro de sua autoria e igualmente publicado no Brasil pela DarkSide, em 2022, foi adaptado para o cinema por Takashi Miike. 

E o próprio Murakami enveredou pela carreira de cineasta e dirigiu versões de seus livros para o cinema, como Tokyo Decadence. Em paralelo, Ryu ainda participou como comentarista de programas de televisão voltados à economia e aos negócios.

Ao longo de sua trajetória, Murakami escreveu mais de 40 obras entre romances e coletâneas de contos e com eles ganhou dezenas de prêmios. 

Além dos livros já citados, merece destaque na bibliografia do autor o romance Miso Soup, relato cru sobre a frenética noite de Tóquio vista por um jovem que serve como guia sexual. O livro saiu no Japão em 1997 e foi publicado no Brasil em meados dos anos 2000.

Ao longo de sua obra, a perspectiva de Murakami é quase sempre pessimista. 

O Japão que ele vê é um lugar degenerado, tomado por uma arrasadora e excessiva influência – política, econômica, cultural e comportamental – dos Estados Unidos. Quase sempre a única saída é o rompimento, que primeiro dá origem à desilusão e, logo depois, à violência.

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