O indomável Mike Tyson

O indomável Mike Tyson

Documentário mostra um boxeador ao mesmo tempo emotivo e assustador

Mike Tyson não tem o carisma e a grandiosidade de um Muhammad Ali, que transcendeu o papel de um ídolo meramente esportivo e se transformou em um símbolo da resistência política e antibélica. 

Também não teve o charme e a simpatia de O. J. Simpson, um megajogador do futebol americano que encantava os torcedores e os fãs de cinema — até se envolver num violento caso de assassinato. 

O que os três tiveram em comum foi uma vida marcada em doses quase iguais de conquistas e de tragédias. A de Mike Tyson é lembrada agora.

Tyson é um documentário de quatro capítulos em exibição na Netflix que reconstitui a fascinante e errante trajetória de um dos maiores boxeadores de todos os tempos. 

Filho de uma prostituta e do cafetão que a explorava, Michael Gerard Tyson nasceu em junho de 1966 em Fort Greene, no distrito do Brooklyn, em Nova York, uma das regiões mais miseráveis dos Estados Unidos na época. 

Marcado por prédios depredados e frequentado por traficantes, viciados e assaltantes, o local moldou o menino que desde sempre teve uma vida marcada pela violência e pelo abandono. Curiosamente seria em meio a esse abandono, e entre tantas passagens por reformatórios, que sua vida iria mudar.

Grande e forte para um adolescente, Tyson chamou a atenção de um dos funcionários da entidade, que passou a treiná-lo. Logo entraria em sua vida um personagem ainda maior, o treinador Cus D’Amato. Lenda do boxe americano, Cus viu em Tyson o potencial para algo que sempre buscou em sua carreira: criar o lutador perfeito. Tyson foi o que chegou mais próximo desse objetivo.

Ao trabalhar não apenas o corpo, mas em especial o lado emocional de um garoto solitário em que os únicos amigos eram os pombos que criava no telhado de um edifício —  “Ele me fez lavagem cerebral. Ele limpou minha mente suja e a melhorou,” reconhece Tyson — Cus D’Amato foi a figura mais importante na formação do boxeador. Houve apenas uma falha, como admite o próprio Tyson: “Ele não me preparou para mim mesmo.”

Assim, foi (e continua sendo) dentro de si que Tyson vem enfrentando seus maiores inimigos.

Como narrador da própria história, ele lembra momentos brilhantes, como a arrasadora ascensão que fez dele, mal saído da adolescência, o campeão mundial dos pesos-pesados mais jovem da história. Ao mesmo tempo, Tyson recorda as surras que levava da mãe, o bullying que sofria de colegas (era chamado de Tyson sujo, pelo pouco apreço que tinha por hábitos de higiene) e os problemas que passou a ter com as drogas desde a juventude. 

Se a ascensão foi impressionante, sua descida ao inferno seria ainda maior. Se no auge, Tyson era, por si só, um ídolo fascinante — não apenas no boxe, em que acumulava uma quantidade implacável de nocautes, derrubando adversários em segundos — seu declínio seria intenso. 

Primeiro com o relacionamento explosivo com a atriz Robin Givens (e também com a sogra) e, mais tarde, com a condenação a seis anos de prisão por estupro, depois de ser denunciado por Desiree Washington, a quem Tyson aproveita o documentário para atacá-la novamente. 

“O que ela conseguiu? Um milhão e meio de dólares? Eu saí da prisão com 400 milhões de dólares, então tire suas próprias conclusões. Sou invencível.”

Nenhuma das três mulheres concordou em dar seu depoimento ao documentário.

Após sair da prisão, o retorno de Tyson seria ainda marcado pela atitude enlouquecida e antidesportiva de morder a orelha de Evander Holyfield. 

“Fiquei horrorizado com aquilo,” diz o ex-presidente Bill Clinton no documentário. “E acredito que o povo americano também ficou.” Ao ser lembrado desse comentário, Tyson não se abala e rebate dizendo que Clinton também entendia muito de escândalos.

Outro ex-presidente, esse bem mais próximo de Tyson, também aparece. Donald Trump, velho conhecido do boxeador e que promoveu várias lutas em seu cassino em Atlantic City, é entrevistado. 

Mas como o atual ocupante da Casa Branca é incapaz de formular um raciocínio mais elaborado e de falar algo em que seu próprio interesse não esteja envolvido, ele apenas usa Tyson e deixa a conversa girar em si mesma quando se compara ao lutador. “A mídia foi dura com o Mike, mas isso só o tornou ainda mais popular”, diz ele. “Eles são duros comigo, e olha que eu sou presidente!”

Dirigido por Floyd Russ, conhecido por trabalhos como Procurados – EUA: Atentado à Maratona de Boston, o documentário é repleto de depoimentos.

Além de amigos, funcionários, parentes, jornalistas, ex-boxeadores, Russ conseguiu ouvir um número representativo de pessoas que tinham algo a dizer. 

Mas quem melhor explica os detalhes é o próprio Tyson, que se abre completamente ao falar dos problemas dentro e fora do ringue e de como a essas histórias se somaram crises profissionais e a perda da fortuna.

Para relaxar, Tyson, como aparece no documentário, brincava com os tigres-de-bengala que mantinha em sua casa.

Em uma das partes do documentário, o repórter pergunta a Tyson se ele tem noção de que muita gente não resistiria se vivesse o equivalente ao que ele viveu em apenas meio ano de sua vida. 

Com enorme franqueza, Tyson responde: “Ainda bem, assim eles não sentem a mesma dor que eu senti.” E completa: “A dor a qual eu sobrevivi mataria qualquer outro.” 

Dessa maneira, um resumo de seis décadas de vida de Mike Tyson — ele mesmo se espanta em ter chegado a essa idade, coisa que seus pais não alcançaram — é dado pelo guarda-costas que o acompanhou durante boa parte de sua vida: mais perigoso do que defender Tyson dos outros era defender Tyson dele mesmo.

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