Fórmula 1: Mark Sutton, o fotógrafo que revolucionou o paddock

Fórmula 1: Mark Sutton, o fotógrafo que revolucionou o paddock

A história do inglês que fez as primeiras e últimas imagens de Ayrton Senna e se tornou uma lenda do esporte

Em 6 de agosto de 1983, Mark Sutton, então com 18 anos, chegou a Oulton Park, no noroeste da Inglaterra, para ajudar o irmão, Keith, na cobertura de uma etapa do Campeonato Britânico de Fórmula 3. Até ali, sua participação no trabalho se limitava principalmente a revelar os filmes do irmão. 

Naquele dia, Keith lhe entregou uma câmera e dividiu as tarefas: ficaria na primeira curva, enquanto Mark deveria procurar um trecho mais afastado. “Eu não sabia muito bem para onde estava indo nem o que estava fazendo,” diz. Acabou justamente onde Ayrton Senna e Martin Brundle, os dois candidatos ao título, se tocaram. 

Mark Sutton Formula 1

O carro do brasileiro subiu sobre o do inglês, passando perto de seu capacete. Sutton fotografou a colisão e, depois, os pilotos caminhando ao lado dos carros. Mais de quatro décadas depois, aquelas imagens em preto e branco continuam em circulação.

Hoje, Sutton trabalha para a Getty Images, agência oficial da Fórmula 1 desde 2021, e pode enviar uma imagem da câmera para os editores em segundos, antes mesmo que os carros completem outra volta. Quando começou, utilizava uma câmera Praktica e precisava escolher o que caberia num rolo de 36 poses e esperar a revelação para saber se havia acertado. 

Em um dos primeiros trabalhos, só 12 fotografias lhe pareceram aceitáveis. Passar da Fórmula 3, com carros capazes de alcançar cerca de 240 km/h, para a Fórmula 1, que já superavam os 300 km/h nas retas em 1983, exigia mais precisão no clique, sobretudo com uma câmera que precisava ter o filme avançado manualmente entre uma foto e outra.

Ainda em 1983, seu irmão Keith o mandou a Silverstone, na região das East Midlands, na Inglaterra, para fotografar um teste de Senna com a Toleman. O brasileiro já havia experimentado um Williams meses antes, mas aquele era o primeiro carro de Fórmula 1 diante da câmera de Sutton. 

“Na época, aquilo não parecia ter uma relevância histórica; hoje, é claro, significa muito para mim,” diz Mark. Senna se preparava para entrar na categoria, e o fotógrafo começava a aprender a acompanhá-la, estudando revistas, as imagens do irmão e o trabalho dos profissionais que encontrava nos circuitos.

Os irmãos Sutton cresceram nas arquibancadas dos circuitos britânicos de autovelocidade, levados pelo pai, que gostava tanto de corridas quanto de fotografia. “Emerson Fittipaldi foi um dos meus primeiros ídolos, enquanto a trajetória de Ayrton esteve entrelaçada ao início da minha própria carreira,” diz Mark. 

Keith chegou primeiro ao lado de dentro do guardrail, trabalhando como fotógrafo. Em março de 1981, foi ao autódromo de Thruxton fotografar pilotos brasileiros para a revista brasileira Autoesporte e encontrou Senna, que disputava sua segunda corrida na Fórmula Ford. 

No fim de semana seguinte, em Brands Hatch, o brasileiro quis saber para quem eram aquelas imagens e o convidou a ser seu fotógrafo, enviando registros das provas ao Brasil por £ 50 por corrida. Naquela mesma tarde, Senna conquistou sua primeira vitória. Considerado pé quente pelo piloto, passou a acompanhar suas corridas, e a procura por suas fotografias começou a crescer.

O trabalho chamou atenção a ponto de Bernie Ecclestone, então proprietário da escuderia Brabham e um dos interlocutores de Senna na Fórmula 1, telefonar para a casa dos Sutton, em Manchester. Os irmãos transformaram a operação numa agência especializada, a Sutton Images, e passaram da revelação dos filmes à distribuição internacional de fotografias.

Em 1996, lançaram seu site. O acervo seria incorporado à Motorsport Images, adquirida pela Getty em 2024, e hoje faz parte de uma coleção de automobilismo com mais de 26 milhões de imagens.

Enquanto o negócio crescia, Mark continuava acompanhando Senna. Nas pistas, chamavam sua atenção o controle do carro e a intensidade do brasileiro; fora delas, encontrava alguém menos exposto nas transmissões. Em 1993, foi visitá-lo para um projeto beneficente e, antes de qualquer outra conversa, o piloto quis saber qual instituição receberia a ajuda. “A filantropia estava sempre em seus pensamentos,” diz. “A câmera também conseguia revelar um lado mais reflexivo e humano.”

Na última fotografia que Sutton fez de Senna, o brasileiro aparece ao lado de Michael Schumacher, em frente às garagens das equipes no autódromo de Ímola, na Itália. Era 1º de maio de 1994, antes da largada do Grande Prêmio de San Marino. Na véspera, o austríaco Roland Ratzenberger havia morrido durante a classificação. “É uma imagem bastante perturbadora, porque é possível perceber algo no olhar dos dois. Olhando para a fotografia hoje, parece que nenhum deles queria disputar aquela corrida,” diz Sutton. Horas depois, Senna bateu na curva Tamburello. O fotógrafo decidiu não ir até o local. “Fotografar aquela cena não me pareceu correto.”

Em geral, Mark procura os pontos em que uma ultrapassagem, uma reação ou um incidente podem render uma imagem, sabendo que terá de abrir mão de outros. “Quando você escolhe uma posição, precisa aceitar que o momento decisivo pode acontecer em outro lugar.” Em Oulton Park, lá em 1983, a falta de experiência o havia levado ao lugar certo. Em Abu Dhabi, em 2021, décadas de profissão e uma vista de cima de todo o circuito não foram suficientes para acompanhar o desfecho. 

Na corrida que decidiu o título entre Lewis Hamilton e Max Verstappen na última volta, Mark estava em um helicóptero, fotografando para o governo de Abu Dhabi. Quando pousou, precisou perguntar às pessoas ao redor o que havia acontecido. “Eu estava presente em um dos desfechos mais dramáticos da história da Fórmula 1, mas, devido ao local para o qual havia sido designado, não acompanhei completamente a história que se desenrolava abaixo de mim.”

Para reduzir essas lacunas, a Getty costuma distribuir cerca de 15 fotógrafos por Grande Prêmio, número que pode chegar a 30 em determinadas corridas. Parte da equipe fica na pista; outros acompanham as garagens, os pilotos, os torcedores e as celebridades. A cobertura começa na quinta-feira, com chegadas, entrevistas e caminhadas pelo circuito, e se estende até depois das comemorações de domingo. Ao longo de um dia, um fotógrafo pode fazer milhares de imagens, transmitidas diretamente da câmera para editores que selecionam, legendam e distribuem o material para publicações de todo o mundo.

Já faz décadas que Mark consegue conferir o resultado dos cliques diretamente na câmera e corrigir a exposição conforme a luz muda, mas ainda sente falta de parte da disciplina que aprendeu com o filme. “Quando cada pose era limitada, era preciso pensar cuidadosamente antes de apertar o obturador. Hoje, o equipamento resolve a transmissão e aumenta as chances de registrar uma sequência inteira, mas não avisa para onde olhar”. A foto pode estar na expressão de um piloto antes da largada ou na reação de alguém dentro da garagem, enquanto todos acompanham os carros.

Em Interlagos, Mark também olha para as arquibancadas. “Os torcedores brasileiros são extremamente apaixonados e expressivos, e essa emoção se torna parte da narrativa visual do fim de semana,” diz. O circuito compacto, com trechos próximos uns dos outros e mudanças de elevação, oferece diferentes perspectivas. Já o clima de São Paulo pode transformar rapidamente tanto a corrida quanto a luz. Da passagem dos pilotos brasileiros pelo pódio, ele guarda a imagem de Rubens Barrichello sambando. “Foi algo espontâneo, alegre e inconfundivelmente brasileiro, exatamente o tipo de momento que um fotógrafo espera registrar.”

Quando convidado a escolher três fotografias de sua carreira, Mark preferiu enviar uma de suas favoritas: Daniel Ricciardo mostrando a língua para sua câmera no pódio do Grande Prêmio da China, vencido pelo australiano em 2018, pela Red Bull. “A imagem mostra a emoção genuína após a vitória em um Grande Prêmio, que é exatamente o que estou sempre esperando capturar.”

Siga o Page9 no Instagram — e assine a newsletter